"É isso que não percebo. Mudou porquê?"

"Porque a geração agora no poder na Alemanha não viveu a Segunda Guerra Mundial e não vê razão para expiar crimes 327

cometidos pelos seus antepassados. E porque, conforme receavam a Grã-Bretanha e a França em 1989, a reunificação alemã restituiu o sentimento de orgulho e a arrogância aos Alemães. A união das duas Alemanhas criou o maior país da Europa ocidental em população e economia, o centro de gravidade de todo o continente. Além disso, a reunificação foi um processo economicamente doloroso e os Alemães sabem bem o que lhes custou pagar para ajudar a antiga Alemanha comunista. Acabados de sair desse pesadelo, que lhes valeu uma crise económica até 2005, vieram agora dizer-lhes que também teriam de pagar para ajudar o Club Med a desenvencilhar-se do sarilho em que se meteu. Como era previsível, não acharam piada à brincadeira." Fez uma voz teatral. "Nós? Pagar? Paguem eles, que estiveram na festa!

Vão trabalhar, preguiçosos! A mama acabou!" Retomou o tom normal. "Ou seja, a Alemanha do livro de cheques já não existe."

"Mas, ó Tomás, achas que precisávamos mesmo da ajuda externa?"

"Então não precisávamos?" O historiador fez um gesto no ar, como se tivesse um objecto rectangular diante dele. "Imagina que a economia de Portugal ou de Espanha é uma caixa multibanco com cem euros no interior. O que se estava a passar é que em cada ano saíam dez euros da caixa. Para os substituir, e uma vez que não podíamos imprimir dinheiro, pedíamos emprestados dez euros aos investidores.

Quando os investidores deixaram de dar dinheiro, ele continuou a sair da caixa mas deixou de entrar. Ficámos com noventa euros no multibanco e no ano seguinte seriam oitenta euros e depois setenta. Faltava dinheiro à economia, percebes? Tirávamos dinheiro da caixa para pagar as importações e não imprimíamos dinheiro para o repor nem ninguém nos emprestava." "Então como se resolveu isso?"

"Para evitar o colapso imediato do euro, e depois de muito resmungarem, os Alemães lá perceberam também que os seus bancos, que tinham emprestado imenso dinheiro aos países periféricos para que entre outras coisas eles comprassem produtos alemães, estavam 328

totalmente encravados e entrariam na falência se houvesse um default imediato e generalizado do Club Med. Por isso acabaram por ceder e autorizaram que o Banco Central Europeu violasse o seu mandato e começasse a comprar dívida do Club Med. Como nenhum investidor nos queria emprestar nem um tostão, porque sabia que nunca mais veria o dinheiro, foi o Banco Central Europeu que se chegou à frente e se pôs a comprar as dívidas que mais ninguém queria comprar. Desde então que os países da periferia vivem à conta do Banco Central Europeu, percebes?" Meteu as mãos nos bolsos e puxou-os vazios para fora. "Se não fosse o BCE, não havia salários, nem pensões, nem subsídios para ninguém."

A revelação deixou Raquel por momentos em silêncio, a meditar no que acabara de ouvir.

"Olha lá, agora como saímos disto?"

Como se estivesse pouco à vontade, Tomás mudou de posição.

Não era claro se o desconforto que o seu rosto reflectia se devia à postura anterior no assento ou à pergunta.

"O que me estás verdadeiramente a perguntar é se os países do Club Med, incluindo Portugal e a Espanha, vão permanecer no euro", observou ele. "E também se o euro irá ou não acabar."

"Sim, no fundo é isso", confirmou a espanhola. "O que vai acontecer?"

O historiador desviou o olhar para a janela e viu prédios a aparecerem nos arredores da linha férrea e a longa faixa azul do mar estender-se ao fundo, pintalgada por pontos brancos que mais não eram do que barcos de recreio e à vela a deslizarem pelas águas mansas do Mediterrâneo.

"Estamos a chegar a Barcelona", constatou. "Vou então revelar-te o futuro do euro..."

"Ah, ainda bem!"

"… mas só mais logo."

329

L

Um rumor de excitação percorreu a mesa depois de Magus ter quebrado com um grito o seu mutismo pensativo. Todos os olhares permaneciam colados ao chefe, ansiosos e subservientes, como se ele fosse o Sol imenso e os que o rodeavam não passassem de planetas minúsculos.

"Já sabe, poderoso Magus?", quis saber Balam com voz submissa.

"O que temos de fazer?"

O dirigente máximo projectou um gesto na direcção do computador portátil pousado a meio da mesa.

"Vamos mandar-lhe um e-mail."

A declaração foi tão inesperada que desencadeou uma cascata de gargalhadas à volta da mesa. Todos pareciam divertidos com o que acabavam de escutar.

"Imparável, poderoso Magus", adulou o chefe da segurança.

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