secção de computadores. "Quero comprar um portátil."

Raquel arregalou os olhos, espantada.

"Para quê?"

"Preciso de contactar o lar da minha me", explicou. "Se usar um telefone fixo, eles vão perceber que estamos em Barcelona. Se usar um telemóvel, podem localizar-nos por GPS. Só me resta o computador."

"Porque não usas um cibercafé?"

"Porque os tipos iam ver o IP de onde a mensagem foi enviada e perceberiam que estávamos em Barcelona."

A agente da I nterpol bateu com a palma da mão na própria testa.

"Ah, pois! Tens razão!", exclamou. "Lá me esquecia da porcaria do IP."

Os portáteis estendiam-se por duas longas estantes. Depois de inspeccionar os vários aparelhos, Tomás acabou por optar por um computador minúsculo de baixo preço e bateria duradoura; a placa de venda falava em sete horas de bateria e acesso a Wi-Fi.

"Este é perfeito."

A Calle Montsió era uma ruela estreita por onde só passavam peões, tão discreta que pareceu a Tomás o local adequado para se instalarem e ligarem a Internet. Meteram por uma porta em arco 334

que se abria à esquerda e refugiaram-se no Eis Quatre Gats, um restaurante típico com ar de tasca, sombrio e de luz amarelada.

Escolheram um lugar no salão, junto às janelas foscas e o mais longe possível da porta.

"Que pontaria, Tomás!", disse Raquel, apreciando a decoração e as fotografias antigas emolduradas nas paredes. "Sabes onde estamos?"

"No restaurante que Picasso frequentava", respondeu o historiador. "Porquê?"

A espanhola riu-se e deu-lhe uma palmada no braço. "És impossível!", repreendeu-o de uma forma benigna. "Às vezes penso que sabes tudo..."

"Tudo não direi. Mas tive de estudar História da Arte e Picasso era incontornável. Este restaurante tornou-se o centro do movimento modernista."

O empregado aproximou-se da mesa e estendeu-lhes a ementa.

Raquel pegou no grande caderno e, antes mesmo de consultar os pratos, voltou a capa do menu na direcção do seu companheiro de viagem e exibiu o desenho da fachada do Els Quatre Gats mostrando um homem de cinzento sentado com uma bengala a uma mesa de madeira na esplanada.

"Estás a ver?", disse. "O desenho da capa foi feito pelo próprio Picasso."

Consultaram os pratos. Tomás pediu em catalão um arrós caldós de llamàntol enquanto Raquel se ficou em castelhano por um entrecot de vaca. Quando o empregado se afastou, o historiador assentou o portátil sobre a mesa e ligou-o. Logo que a ligação à Internet ficou estabelecida, procurou o site do lar e identificou o endereço electrónico.

A seguir entrou na sua própria conta. Tinha muitas mensagens por abrir. Percorreu-as com os olhos; a esmagadora maioria era lixo.

Naquela sucessão de mensagens irrelevantes identificou um e-335

mail da faculdade que abriu de imediato; tratava-se da derradeira folha de vencimento a indicar que o salário fora enviado para a sua conta, à qual não tinha acesso por decisão da polícia ou de qualquer outra entidade estranha. Reconheceu a seguir alguns e-mails de amigos e de colegas da faculdade. Abriu dois. Um deles questionava-o sobre as notícias de que a polícia o procurava por homicídio, o outro era de um professor do departamento de História a manifestar-lhe a sua solidariedade. Seria pelo despedimento ou pelo caso da polícia?, interrogou-se; a mensagem não o esclarecia.

Voltou ao inbox e percorreu de novo com os olhos as mensagens ainda por abrir.

Congelou.

"Que é isto?"

A pergunta foi formulada com tal choque na voz e com tamanha estupefacção estampada no rosto que inquietou Raquel.

"Que se passa?", inquiriu ela. "Aconteceu alguma coisa?" "O

Filipe!", exclamou Tomás, ainda incrédulo. "Tenho aqui uma mensagem do Filipe!"

"O quê?"

Colaram ambos os olhos ao ecrã do portátil; ali estava, no inbox, a mensagem por abrir de Filipe Madureira. Sem perder tempo, Tomás entrou nela e ambos devoraram o conteúdo a dar conta do coma e do encontro na meia-noite do dia seguinte nos Uffizi para falar com o tal Mefistófeles.

"O Filipe está vivo!", exultou Tomás, virando-se para a espanhola.

"Vivo!"

Abraçaram-se os dois para festejar a notícia; tudo aquilo lhes parecia incrível, dava a impressão de um filme de Hollywood com final feliz.

"Ainda me custa acreditar!"

O olhar do historiador regressou ao ecrã para se certificar de que 336

lera bem o e-mail.

"Mas... eu vi-o morrer nos meus braços!", interrogou-se. "Além disso houve notícias na televisão e nos jornais a dizer que eu era procurado pelo homicídio do Filipe. Até a Interpol recebeu uma nota da polícia portuguesa a dar conta do caso."

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