"Viste-o morrer nos teus braços?", devolveu Raquel. "Às vezes o estado de coma confunde-se com a morte. Quanto às notícias, devem ter sido os nossos perseguidores que plantaram tudo isso. É costume a polícia inserir na imprensa notícias falsas para ludibriar os suspeitos que procura. Trata-se de uma prática perfeitamente normal. Os tipos querem deitar a mão ao tal DVD e simularam a morte do Filipe para conseguirem o que queriam."

Sentindo um peso sair dos ombros, Tomás respirou fundo. "Ufa!

Que alívio", suspirou. "Ainda bem que ele está vivo! Ferido, mas vivo!

Valha-nos isso!"

Concentraram-se mais uma vez na mensagem que tinham acabado de abrir, desta feita atentos não ao facto de o amigo comum dar notícias e estar vivo, mas às instruções.

"Ele quer-nos em Florença", observou Raquel depois de reler a mensagem. "Amanhã." Virou-se para o seu companheiro de viagem.

"Parece que vamos ter de alterar o nosso destino..."

O historiador deitou a mão ao bolso e extraiu dois bilhetes de comboio que adquirira na estação de Atocha, em Madrid.

"O nosso destino sempre foi Florença", revelou, com um : sorriso triunfal. "Esta mensagem apenas confirma aquilo que eu já suspeitava."

Incrédula, a espanhola verificou os bilhetes adquiridos horas antes. As indicações impressas confirmavam que iam de facto apanhar um comboio que saía nessa noite da estação de Barcelona com destino a Florença. Chegariam pela manhã.

"Florença?", admirou-se, levantando os olhos e fitando Tomás.

337

"Nós íamos para Florença? A que propósito?"

"Lembras-te quando esta tarde estávamos no apartamento da tua amiga? Na altura tinhas a televisão ligada e dava o noticiário. Uma das notícias era que começava amanhã a sessão preliminar do Tribunal Penal Internacional sobre os crimes contra a humanidade que conduziram a esta crise. A informação ficou-me às voltas na cabeça, até que me lembrei que o Filipe me tinha dito que a última vez que tinha tomado banho fora em Itália. Isto só podia significar que havia escondido aí o DVD."

"Está bem, mas como chegaste a Florença?"

"Pela notícia da televisão. O conteúdo do DVD escondido em Itália relaciona-se com os crimes da crise, o TPI reúne-se em Florença para investigar os crimes da crise. É evidente que o Filipe guardou o DVD na mesma cidade onde o Tribunal Penal Internacional irá conduzir o processo, não te parece?"

Raquel voltou a abraçá-lo.

"Brilhante!", exclamou. "És realmente brilhante!"

Como se uma força invisível os atraísse, colaram os lábios num beijo, mas sentiram uma presença ao lado e viraram-se; era o empregado que trazia o arroz de lagosta e o entrecosto de vaca e os fitava com uma expressão desaprovadora por vê-los em cenas daquelas no meio do restaurante. Apartaram-se com relutância e deixaram que ele pousasse os pratos.

Quando o empregado se afastou, Tomás voltou a sua atenção de novo para o ecrã e releu a mensagem. Depois carregou no reply e redigiu a resposta.

Olá, Filipe.

É óptimo saber que estás vivo, rapaz! Estou com a tua amiga Raquel e nem imaginas o que temos passado à tua custa, meu grande camelo!

Fingiste que morrias e deixaste-nos uma bela prenda nas mãos, hem? És um ordinário!

338

;-)

O criptograma está bem apanhado, sim senhor. Ia matando a cabeça para o decifrar! Fez-me lembrar os nossos tempos no Liceu Afonso de Albuquerque, lá em Castelo Branco. Lembras-te das nossas charadas?

Lá estaremos nos Uffizi amanhã à meia-noite. A coisa está difícil e precisamos mesmo de ajuda. Espero que esse Mefistófeles (que raio de nome o tipo arranjou! — deve ser alcunha, não?) resolva esta maldita embrulhada. Além dos rapazes que te balearam, temos a polícia à perna. Um pesadelo. Depois conto-te.

Um abraço dos teus amigos, Tomás e Raquel.

Deixou a espanhola ler a mensagem e, depois de ela fazer sinal com a cabeça a aprovar, carregou no send e o e-mail foi enviado.

"Esse criptograma", murmurou Raquel. "O que diz ele?"

Tomás saiu do seu endereço electrónico e desligou o computador. Enquanto esperava, levantou os olhos para a agente da Interpol e sorriu.

"O sítio exacto onde se esconde o DVD", respondeu.

"É isso o que revela o criptograma."

Baixou de novo o olhar para o portátil e preparou-se para escrever uma segunda mensagem, esta destinada à directora do lar. O

problema da mãe era outra prioridade sempre presente na sua mente.

339

LII

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