"Nenhuma. Os legisladores não estão obviamente interessados em punir a corrupção a sério e em proteger quem a denuncia porque isso significaria que se punham a si mesmos em causa. Legislam em causa própria. Vocês não notaram, na gravação desta última conversa, aquela alusão ao escritório de advogados de um determinado deputado, o tal Manei? Trata-se de uma referência a um dos esquemas com que se branqueia a corrupção fingindo-se combatê-la. O que se passa é que os governantes entregam a elaboração das leis a grandes escritórios de advogados, que as redigem de uma forma muito confusa."

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"Então não devem ser grandes juristas", observou Agnès Chalnot. "Um bom jurista redige leis simples e claras."

"Não está a perceber", disse Tomás. "As leis que eles redigem são deliberadamente confusas!"

A francesa fez uma careta de incompreensão. "Deliberadamente?"

"Claro. Quanto mais confusa e contraditória é a lei, mais alçapões contém. Os advogados contratados pelos partidos e pelos governos lavram leis cheias de regras sempre numa linguagem ininteligível, carregadas de excepções formatadas para as conveniências. Além do mais, e como esses textos são propositadamente confusos, os escritórios de advogados ganham ainda dinheiro a elaborar pareceres sobre as leis que eles próprios fizeram. É uma gatunagem incrível. Andam a cortar salários e pensões às pessoas para pagar os prejuízos provocados por toda esta corrupção."

A procuradora-geral do Tribunal Penal Internacional suspirou.

"Pois é", anuiu ela. "Juntamente com a questão do financiamento partidário, esse problema é de facto central."

"As duas questões estão relacionadas uma com a outra", reconheceu Tomás. "Mas a questão mais central de todas é a suscitada pela próxima gravação, por sinal a última. Trata-se de Uma interessante conversa entre o primeiro-ministro português, que se encontrava em Bruxelas para outro conselho europeu, e o ministro das Finanças, que ligou de Lisboa. Ora vejam."

O historiador carregou no play e a imagem do gabinete da delegação portuguesa voltou a materializar-se no ecrã do computador portátil, mostrando de novo o chefe do governo sentado à secretária e agarrado ao telefone fixo.

"Então, Gonçalo?", perguntou a voz de Lisboa. "Preparado para mais uma cimeira?"

"Ufa, isto é uma seca das antigas! Vou ter de pedinchar mais umas ajudinhas..." Mudou o tom de voz. "Olha lá, conseguiste aquele 499

investimento dos Americanos em Setúbal?"

"Nem me fales nisso!", devolveu o ministro das Finanças. "Fui lá a Seattle com a conversa de que investir em Portugal é que é bom e coisa e tal, mas os tipos responderam logo que não. Parece que andaram a informar-se e descobriram que, para um trabalhador relativamente bem pago, dois terços do custo para a empresa vão para impostos. Perceberam que temos das maiores cargas fiscais do inundo e disseram-me que não estão para vir aqui esbanjar dinheiro. Além do mais, foram avisados de que não se consegue despedir ninguém, que a burocracia é infernal e que os processos em tribunal levam quinze a vinte anos a ser resolvidos. Decidiram investir na Polónia..."

"Eh pá! Que chato! Não lhes explicaste que temos bom sol, que a comida é óptima, que as pessoas são muito simpátic..."

"Os investidores não querem saber disso para nada, Gonçalo! Sabes o que te digo? Temos de mudar estas leis, porque senão não vamos a..."

"Nem penses numa coisa dessas!", cortou prontamente o primeiro-ministro, nada interessado em alimentar aquela conversa. "Só se quiséssemos perder as eleições! Além do mais, os sindicatos caíam-nos todos em cima!"

"Isso é conversa! Achas mesmo que os sindicatos iam opor-se a medidas que permitiriam criar emprego?" O chefe do governo soltou uma gargalhada.

"Deves estar a gozar! Os nossos sindicatos exigem a criação de emprego e ao mesmo tempo querem manter as actuais leis, que dificultam a criação de emprego. Não percebem, ou fingem não perceber, que com a globalização as grandes empresas têm alternativas de investimento e que com as nossas leis ninguém abre negócio em Portugal." Suspirou. "Enfim, não te rales. Quando isto der para o torto alguém que resolva o problema! Temos é de ir tratar da nossa vidinha, não é verdade?"

O ministro das Finanças não insistiu, tão peremptório fora o seu 500

chefe. Em vez disso, afinou a garganta e baixou a voz.

"Bem, liguei-te por causa de outra coisa", disse de mansinho. "Tenho aqui um problema sério e preciso de falar contigo com urgência."

"Que se passa, Augusto? Não me digas que os cabrões dos jornais voltaram a..."

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