"Não é nada disso", cortou o ministro. "Recebi aqui uma informação da Direcção-Geral de Contribuições e Impostos que... enfim, isto é muito complicado, muito complicado mesmo."

"Então? Que aconteceu?"

"Parece que há uma quebra brutal das receitas." "Brutal como?"

"O IRS, o IRC, o IVA.., as receitas do fisco tombaram em flecha."

"Estás a brincar!..."

"Quem me dera! Esta crise na América parece estar a atingir a economia de uma maneira que não prevíamos. As vendas caíram, as empresas estão a facturar menos e muitas até começaram a fechar, há por isso mais malta a ficar sem trabalho e... e anda tudo a pagar menos impostos. As receitas levaram um trambolhão do catano!"

Fez-se um silêncio súbito na linha, com o primeiro-ministro a ponderar o que acabara de escutar.

"Olha lá, isso já transpirou?"

"Não, não. Nada. Esta informação é interna."

O primeiro-ministro suspirou, aparentemente aliviado.

"Ufa, ainda bem!", bufou. "Mantém a coisa em segredo, ouviste?

Vêm aí eleições e não quero cá mais chatices. A oposição é bem capaz de pegar nisso e os jornais..."

"Mas, ó Gonçalo, não estás a ver bem o problema", insistiu o ministro das Finanças. "Se temos menos receita, precisamos de baixar a despesa ou aumentar os impostos."

"Estás doido?", exaltou-se o chefe do governo, irritado com a sugestão. "Com as eleições à porta?"

"Se não fizermos nada, o défice dispara."

501

"A malta controla a coisa."

"Qual controla a coisa?! Se entra menos dinheiro, não podemos gastar tanto. Isto é simples aritmética. Temos de cortar na despesa ou aumentar a receita. O problema é que a receita está a levar um tombo dos antigos."

"Não, não", exclamou o primeiro-ministro. "Nem pensar!" "Então como fazemos?"

"Contraímos mais empréstimos para tapar esse buraco." "Mas assim a dívida pública vai disparar."

"Estou-me a borrifar para a porra da dívida pública!", desabafou o chefe do governo, elevando de novo a voz. "Vêm aí eleições e é preciso distribuir umas benesses pela populaça. Por isso vamos até aumentar os salários e baixar os impostos."

O ministro das Finanças quase gritou do outro lado da linha.

"O quê?"

"É como te digo: vamos aumentar a função pública. Estava a pensar em.., sei lá, três por cento."

"Um aumento de três por cento nos salários?!"

"Achas de mais?" Hesitou. "Está bem, ficamos pelos dois vírgula nove por cento." Nova hesitação. "Mas se os aumentos não chegam aos três por cento temos de dar umas alvíssaras com os impostos. Que tal baixar o IVA um ponto?" "Mas... mas..."

"As eleições estão à porta, meu caro amigo!", insistiu o primeiro-ministro.

"Queres perdê-las ou quê?"

"Ó Gonçalo, isso é uma loucura! Não há dinheiro para aguentar uma coisa dessas."

"Tem calma. Ouve, vou explicar-te como vamos fazer a golpada.

Aumentamos a função pública e baixamos o IVA, não é? Dizemos que isto tem a ver com a melhoria da economia e com a nossa gestão rigorosa dos dinheiros públicos e coisa e tal. Fazemos um vistaço do camano. Vêm as eleições, a malta ganha com uma perna às costas e, logo a 502

seguir, pimba!, dizemos que afinal a situação internacional piorou, o que aliás não é mentira nenhuma, e cortamos regalias e deduções fiscais, de modo a reduzir os salários de uma forma invisível, e aumentamos outra vez o IVA e, se necessário, o IRS. Limpinho."

O tom de voz em Lisboa era de desaprovação. "Não me parece nada bem."

"A escolha é simples: queres perder ou ganhar as eleições?"

"Não é isso. A questão é que benesses desse calibre são ruinosas.

Além do mais, ninguém vai acreditar nessa conversa..."

"Claro que vai", retorquiu o chefe do governo. "O De Gaulle disse uma vez que, como nenhum político acredita no que diz, fica sempre surpreendido quando vê que os outros acreditam nele. É mesmo assim, meu caro! As vezes digo com ar sério as maiores tretas que possas imaginar.., e o pessoal papa tudo. Eu próprio às vezes fico espantado! De modo que podes ficar tranquilo. Já ando nisto há muitos anos e sei bem como é..."

"Mas achas que o pessoal não vai notar que estas medidas surgem em contra ciclo só por causa das eleições?"

"Mesmo que notem, qual é o problema? Dizes que os aumentos salariais em ano de eleições são 'mera coincidência' e o pessoal o que faz?

Alguém vai opor-se ao aumento dos seus salários?" Riu-se. "Vai por mim, irá correr tudo bem..."

Sentiu-se uma hesitação no outro lado da linha.

"Pois, és capaz de ter razão."

"Claro que tenho razão!", exclamou o primeiro-ministro. "Mas é essencial que essa informação da Direcção-Geral de Contribuições e Impostos permaneça confidencial, ouviste? Nem um pio sobre isso!"

"Está bem, vou ficar caladinho", prometeu o ministro das Finanças.

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