"Mas a carta existe, Gonçalo. O que vamos nós dizer se alguém a descobrir depois das eleições?"
"Dizemos que ela não nos chegou, que não a lemos, que não soubemos de nada... uma tanga dessas."
503
"Mas há alguém que acredite nisso?", questionou a voz de Lisboa, ainda carregada de cepticismo. "Isto são as receitas do estado, Gonçalo! Como é possível que uma informação desta importância não chegasse até nós? Dizer que não fomos informados de que as receitas sofreram um colapso é o mesmo que o imperador do Japão dizer que não foi informado de que caíram bombas atómicas no seu país. Não é possível! Ninguém vai comprar uma desculpa tão esfarrapada!"
"Compram, compram!", retorquiu o chefe do governo, seguro de si. "Se a malta negar com convicção, as pessoas acreditam. Sem espinhas!
E mesmo que algumas não acreditem, nunca ninguém poderá provar coisa nenhuma."
A imagem foi a negro e Tomás carregou no stop e voltou-se para os procuradores.
"Esta derradeira conversa ilustra o problema central que conduziu o planeta à crise", observou. "O facto de os políticos porem as suas eleições e reeleições à frente dos interesses dos seus países. Neste caso, tivemos governantes portugueses que, informados em vésperas de eleições da quebra das receitas fiscais, mesmo assim aumentaram salários e cortaram impostos com o único fito de serem reeleitos. Este problema não é, porém, do partido A ou do partido B, do país K ou do país W. Não foi o presidente americano que foi apanhado a segredar ao seu homólogo russo que teria de ser mais duro na retórica anti-russa por causa das eleições que se avizinhavam na América, mas que depois seria mais flexível? Trata-se de um problema geral e fundamental das nossas democracias. Na raiz de todas as dificuldades não estão as falhas ideológicas da direita e da esquerda, embora contribuam seriamente para elas, mas essa questão fundamental de os políticos porem a sua eleição à frente de tudo. É isso que viabiliza a corrupção no financiamento partidário e as interferências dos poderes económicos e financeiros nas decisões políticas, permitindo todos os joguinhos que 504
põem interesses particulares à frente dos interesses colectivos. É isso que leva os políticos a fazerem promessas irrealistas e a adoptarem políticas despesistas que a prazo conduzem à bancarrota. Quando a crise vem, conseguem até convencer os eleitores de que a culpa é dos outros, e em particular dos especuladores, um bode expiatório conveniente porque não tem rosto e não se pode defender. Os políticos querem ser eleitos e fazem tudo, mas tudo mesmo, incluindo vender a mãe e sacrificar os interesses dos seus países, para conseguir esse objectivo pessoal. Põem as eleições e os seus interesses particulares à frente de tudo o resto. Podem dizer que na origem da crise está o facto de todos vivermos acima das nossas possibilidades. Isso é parcialmente verdadeiro e deve-se à nossa incapacidade de competir com os produtos provenientes das economias emergentes. Mas metade, ou mais de metade da crise, deve-se a negociatas de governantes em actos resultantes de tráfico de influências e de corrupção despudorada, situações de que o cidadão comum não tem a menor culpa mas cujos prejuízos é chamado a pagar." Apontou para Marilú. "É este o problema central com o qual o processo do Tribunal Penal Internacional terá de lidar frontalmente e sem tergiversações se quiser ser bem-sucedido."
Quando Tomás se calou, um silêncio pesado impôs-se na Sala Botticelli. Foi a procuradora-geral do TPI, como de resto lhe competia, quem por fim o quebrou.
"Vai ser um processo diabólico", desabafou ela, uma nuvem de cansaço a toldar-lhe o olhar. "Vamos ter de sentar os governantes de uma série de países no banco dos réus."
"Não se esqueça dos antigos..."
"Quais antigos?"
"A responsabilidade pela crise não se limita aos governantes dos últimos anos", lembrou o historiador. "As culpas são partilhadas por muita gente no passado. É preciso processar também muitos antigos 505
governantes por crimes contra a humanidade. Primeiros-ministros, ministros das Finanças, ministros das Obras Públicas, presidentes de governos regionais, governadores de bancos centrais, a maioria dos autarcas..."
"Também os autarcas? Mas assim a lista nunca mais acaba!"
Tomás abriu os braços, num gesto de impotência.
"Pois é, minha cara!", exclamou. "Se queremos processar os suspeitos de responsabilidade pela crise temos de ter consciência de que há muita gente envolvida, embora com diferentes graus de culpa.