O olhar do intruso colou-se à fotografia assente na mesinha ao lado do sofá e que mostrava o proprietário do apartamento a sorrir diante do Palácio da Potala, no Tibete.

"Este gajo?"

"Sim. Tens de ter muita atenção com o fulano. Não foi por acaso que o nosso amigo lhe pediu ajuda. Parece que esse professor Noronha já lhe tinha dado uma mãozinha num caso que ocorreu há uns anos. Se não tivermos cuidado, o nosso projecto pode estar em causa."

A atenção de Decarabia manteve-se fixa no rosto sorridente da fotografia, tentando ler o que a imagem não lhe dizia. "Mas ele não é historiador?"

"Afirmativo."

O operacional coçou a cabeça, sem perceber como poderia um simples historiador constituir uma ameaça, por menor que fosse.

"Ele trabalhou com a CIA e com a Interpol? Isso significa que tem formação específica em combate..."

"O tipo não é perigoso em combate, Decarabia. Mas parece que se trata de um crânio, um ás a resolver problemas complexos. Foi aos seus talentos intelectuais que a CIA e a Interpol recorreram e são eles que nos podem criar dificuldades sérias, não os músculos."

"Um crânio, grande Magus?" Voltou a coçar a cabeça, desconcertado, a tentar retirar um sentido do que lhe era dito. "Hmm... tem ao menos conhecimentos tácticos em operações?"

"Que eu saiba não."

"Então qual é exactamente o problema?"

"O gajo é mais esperto do que tu e eu juntos, ouviste? Foi-me descrito como um adversário formidável, rápido a pensar e fulminante a agir, capaz de improvisar perante o imprevisto e de dar a volta às situações 162

mais desfavoráveis. Tens de ter o máximo cuidado com ele, percebes?"

O intruso respirou fundo; o seu superior hierárquico não podia ter sido mais claro.

"Que lhe devo fazer?"

"Mata-o", foi a resposta imediata. "Antes mesmo de capturares e interrogares o nosso alvo, elimina esse gajo. Não lhe dês oportunidade para criar sarilhos, ouviste?"

O olhar de Decarabia voltou a descer para a fotografia pousada na mesinha ao lado do sofá. Semicerrou os olhos e gravou na memória o rosto que de Lhasa ainda lhe sorria.

"Sim, grande Magus."

Desligou o telemóvel, guardou-o no bolso e levantou-se. Deu três passos e encostou-se à janela da sala. As cortinas brancas estavam corridas para os lados, expondo-o aos olhares de fora. Puxou as cortinas para o centro e, sentindo-se invisível, espreitou enfim para o exterior. Via-se a rua e o passeio lá em baixo. Impossível alguém passar por ali sem que ele desse por isso. Desceu as mãos para o cinto, tirou a pistola, verificou as munições e destravou a cavilha de segurança.

Estava pronto.

163

XXI

A porta da garagem do prédio abriu-se com um zumbido eléctrico.

Depois de terem largado Alexandre no Campo Pequeno, Tomás e Filipe dirigiram-se para casa. O Volkswagen azul desceu a rampa da garagem e, como habitualmente, parqueou no lugar reservado ao morador do segundo esquerdo. Depois de se certificar de que não se esquecera de nada no carro, o historiador trancou o automóvel e conduziu o seu convidado pelo corredor até à porta interior que levava à escadaria do prédio.

Puxou a maçaneta, mas a porta não se abriu.

"Porra, está trancada!", constatou com um esgar de contrariedade.

"Esquecime da chave em casa..."

"Então o que fazemos?"

O anfitrião suspirou com irritação, tentando manter a paciência perante a contrariedade; não se tratava de nada grave, como era evidente, mas dispensava a volta que agora teriam de dar pelo exterior do edifício.

"Temos de sair pelo portão e entrar pela porta principal", disse com resignação, fazendo ao amigo um gesto para que ele o seguisse.

"Anda."

Percorreram o corredor em sentido contrário e dirigiram-se ao portão da garagem do prédio. Tomás carregou num interruptor e o portão voltou a abrir-se. Saíram para o passeio e dirigiram-se para a entrada principal do prédio. O historiador olhou para o amigo e viu-o ainda agarrado ao mesmo envelope de sempre.

164

"Olha lá", gracejou. "Casaste com esse envelope?"

"É um dossiê que preparei", explicou Filipe. "Não me posso separar dele."

"Um dossiê sobre quê?"

"São informações relacionadas com o processo no qual estou envolvido."

"É por causa disso que andas fugido?"

O olhar do amigo toldou-se com uma sombra fugaz.

"Também", disse num tom velado, cheio de subentendidos. "Não só, mas também."

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