"Só se for a imigração", assentiu Filipe, balouçando afirmativamente a cabeça. "Embora apenas os imigrantes pouco qualificados estejam interessados em vir para este país, claro. Como é bom de ver, esses criam pouca riqueza.", Fixou o olhar na vegetação que corria à berma da estrada. "O importante, meus caros, é perceber que não temos de momento condições para combater o défice pela via do crescimento económico. Assim sendo, só podemos enfrentar o problema do défice através da redução da despesa e de reformas estruturais, que são penosas mas que nos tornam competitivos a médio ou longo prazo. Os países escandinavos e a Alemanha, que produzem muito mais riqueza do que nós e apesar de tudo dispõem de maiores taxas de natalidade, em vez de se meterem na conversa fiada do crescimento económico para nada fazerem já cortaram a sério no seu estado social e nos salários.

Também é esse, receio bem, o nosso caminho."

A observação era sombria, mas Tomás não parecia perturbado. A sua preocupação, na verdade, já era outra. Apercebeu-se da saída para a estação de serviço de Pombal e de imediato virou o volante e abandonou a auto-estrada.

Tal como a economia, o depósito de combustível tocara no fundo.

159

XX

Fez duas chamadas sucessivas para o número de telefone e o facto de ninguém ter atendido deu-lhe a indicação segura de que o apartamento estava deserto. Essa era, de resto, a conclusão a que já havia chegado após duas horas a vigiar o edifício.

Manejando com destreza a chave-mestra, Decarabia forçou a fechadura e a porta do apartamento do segundo esquerdo abriu-se com um clique metálico.

"Correio!", anunciou, a cabeça espetada pela entrada a espreitar o interior. "Está alguém em casa?"

Como era de esperar, ninguém respondeu. A pergunta, aliás, só tinha sido lançada como medida adicional de segurança. Confiante de que não haveria surpresas, o intruso fechou a porta atrás dele e começou a revistar o apartamento. Procedeu metodicamente, iniciando a busca pela sala e terminando nos quartos de banho. Era por de mais evidente que estava num espaço masculino, a que faltava o toque artístico de uma mão de mulher. Não havia flores nem nenhum objecto de decoração para além de uns quantos souvenirs de viagem e das mais diversas velharias, um Buda tibetano assente numa coluna, uma placa com hieróglifos sobre a estante, um velho pergaminho com caracteres hebraicos pregado à parede, um boomerang aborígene australiano pousado no estirador, um vaso cheio de moedas romanas antigas.

Decarabia vasculhou nas gavetas, nos armários e até nos colchões, mas nada encontrou de relevante para além de fotografias.

Viu espalhadas pelos móveis imagens emolduradas de uma menina com síndroma de Down, a foto de uma mulher com sardas, possivelmente 160

a mãe da menina, um cliché antigo mostrando um casal com uma criança, decerto o morador do apartamento quando era criança a posar com os pais, e algumas fotos de um homem em diferentes pontos do planeta, aqui diante das pirâmides de Guiza, ali rodeado de gelo num cenário polar, acolá à frente do Potala em Lhasa, no outro lado a deambular pelo bairro muçulmano da cidade velha de Jerusalém.

Sentou-se no sofá, sacou do telemóvel que tinha no bolso e digitou o número.

"O nosso alvo não está em casa, grande Magus", disse logo que uma voz atendeu do outro lado. "Aliás, o apartamento está deserto."

"Deserto como? Achas que fugiram?"

Decarabia fez uma careta céptica.

"Não, isso acho que não. Dá a impressão de que simplesmente se ausentaram. Uma fuga em cima da hora implicaria sempre uma certa confusão." Passou os olhos pelo espaço em redor. "Está tudo demasiado arrumado para isso."

A voz na linha pareceu descontrair-se.

"Ainda bem", disse. "Então o que vais fazer agora?"

"Montar-lhes uma emboscada, claro."

"Perfeito." Fez uma pausa e ouviu-se o som de papéis a serem remexidos. "Olha, tenho aqui a identificação do amigo."

"Já sei. É um historiador qualquer que foi colega dele no liceu.

Quando vos enviei a imagem registada pela câmara da máquina multibanco disseram-me que..."

"Isso foi a identificação sumária que te deram", disse Magus. "Mas chegou-me agora um relatório completo sobre esse fulano e... com franqueza, fiquei preocupado."

O recurso a esta última palavra por parte do seu interlocutor surpreendeu Decarabia.

"Preocupado, grande Magus? Porquê?"

"Esse tipo significa sarilhos", foi a resposta. "Tem cara de vedeta de 161

cinema e um currículo de menino betinho, mas pelos vistos já esteve envolvido em operações muito delicadas." Baixou a voz. "Coisas com a CIA, se é que me entendes. Até com a Interpol."

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