Assustado com o zumbido que cortara o ar mesmo ao lado dele, correu mais depressa e apanhou Filipe, que tinha a respiração pesada e evidentemente não seria capaz de prolongar o esforço muito mais tempo. Atirou um olhar de relance para trás e viu o homem de negro mais próximo; não era preciso ser muito perspicaz para perceber que em breve os alcançaria.

Olhou em redor e detectou uma farda azul na berma da rua; era 167

um barrigudo da PSP.

"Senhor guarda!", berrou, chamando a atenção do polícia.

"Senhor guarda, estamos a ser perseguidos!" Apontou para trás.

"Aquele homem! Aquele homem vem armado!"

O polícia olhou na direcção indicada e, para seu espanto, constatou que assim era. Empertigou-se e, puxando as calças para cima da pança vasta, pôs-se a caminhar na direcção do desconhecido, de apito na boca e modos plenos de autoridade.

"Co'a breca, alto!", ordenou, levantando a mão como se quisesse parar o trânsito. "O senhor venha cá, se faz favor! Identifique-se!"

Tomás viu o desconhecido abrandar e sentiu um frémito de alívio percorrer-lhe o corpo. Felizmente aquela situação bizarra terminara e poderia enfim apurar o que se passava; o amigo teria muitas explicações a dar.

Sentiu algo puxá-lo pela mão.

"Anda! Foge!"

Voltou-se e viu Filipe, o pânico ainda a colorir-lhe a expressão do rosto.

"Tem calma", disselhe. "O polícia já o..."

Escutou nesse instante um novo estampido vindo lá de trás e voltou-se para perceber o que acontecera. Viu o polícia estendido no chão de barriga para o ar, a nuca desfeita numa massa de sangue e massa encefálica, e o desconhecido a correr de novo na direcção deles com a pistola fumegante na mão.

"O gajo... o gajo matou-o!"

Filipe voltou a puxá-lo, a voz tingida de medo. "Foge, caraças!

Foge!"

Recomeçaram a correr e agora Tomás tinha a perfeita convicção de que corria para salvar a vida. Não só o desconhecido o alvejara como, sobretudo, abatera um polícia a sangue-frio no meio da rua e à luz do dia. Quem fazia uma coisa dessas, sabia, faria muito mais. A 168

ameaça era séria.

Várias pessoas vinham em sentido contrário e viu-se forçado a ziguezaguear entre elas. No instante em que o fez sentiu um novo zumbido perto da orelha e escutou outro estampido. Fora mais uma vez alvejado. Em boa hora mudara de direcção, caso contrário com toda a probabilidade teria sido atingido. Estranhou momentaneamente o novo disparo na sua direcção; dava a impressão de que ele próprio era o verdadeiro alvo do perseguidor, não o seu amigo, mas o momento não lhe parecia adequado para reflectir, apenas para correr e escapar-se.

Atirou um novo olhar para trás. O desconhecido em breve apanhá-los-ia, não só porque parecia muito ágil mas também porque Filipe já dava as últimas; o amigo estava ofegante, tinha os pulmões exangues e perdia rapidamente o fôlego. Só um golpe de asa lhe permitiria escapar com vida.

Olhou para a rua, desesperado, à procura de um táxi. O trânsito estava imobilizado por causa de um semáforo vermelho e não havia qualquer táxi livre à vista. Para compensar, viu um jovem sentado numa Kawasaki encarnada de aspecto potente, com rodas grossas e dois grandes tubos de escape.

Estava ali o golpe de asa.

"Anda daí!"

Agarrou em Filipe e puxou-o na direcção da moto. Quando se abeirou dela desferiu um murro inesperado nos rins do motociclista, que se contorceu com dores, e fê-lo saltar da Kawasaki. Ajudou o amigo a montar, saltou para a posição de piloto e arrancou com um rugido furioso e tanta fúria que quase empinou a moto. Controlou-a de imediato e, em ziguezague entre os automóveis, passou o semáforo vermelho entre um coro desordenado de buzinadelas.

"Ufa!", bufou. "Já nos safámos!"

Espreitou brevemente para trás, de modo a verificar a posição 169

do perseguidor, e vislumbrou o vulto negro junto a outro motociclista parado à espera do verde. Seria possível que ele continuasse a perseguição? Precisava de se certificar, mas não tinha modo de o fazer, a condução da moto requeria toda a sua atenção.

"Que se passa?", quis saber Filipe, gritando para se fazer ouvir sobre o ronco da Kawasaki e do vento. "Está tudo bem?"

"Vê o que o tipo está a fazer!"

Sentiu o amigo voltar-se para trás e aguardou as novidades. Elas não tardaram.

"O gajo vem atrás de nós!", berrou Filipe, de novo o pânico a dominar-lhe a voz. "Mais depressa!"

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XXII

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