Não era fácil acelerar pelas ruas de Lisboa, mesmo estando elas menos congestionadas do que no passado, até porque havia já alguns anos que Tomás não pegava numa moto e sentia que lhe faltava prática. Apesar disso carregou um pouco mais no acelerador e sentiu que ganhava confiança e destreza a cada minuto que passava; era um pouco como andar de bicicleta, depois de se aprender nunca mais se esquecia.

"Então?", atirou para trás. "Já o despistámos?"

"Não. Tens de ir ainda mais depressa!"

Mais depressa?, interrogou-se Tomás. Como? Mais veloz do que aquilo parecia-lhe impossível, ou pelo menos imprudente. Sentia o vento esbofetear-lhe a cara e esforçava-se por encontrar um compromisso entre velocidade e agilidade, imprescindível para manter um mínimo de segurança, mas o facto é que a Kawasaki levava duas pessoas e isso, dando um peso extra ao veículo, roubava-lhe equilíbrio e atrasava-os alguns metros preciosos. Como poderia ser mais rápido?

"Mais depressa!"

A voz de Filipe transmitia urgência e Tomás percebeu que a fuga não se poderia arrastar até que um deles ficasse sem combustível. Isso dar-lhe-ia uma hipótese em duas de ser apanhado; não podia entregar-se a esse tipo de probabilidades. Aliás, antes disso seria decerto apanhado; o outro vinha só na moto e tinha assim maior liberdade de movimento. Precisava de um plano. Mas qual? O que poderia fazer? Por mais que carregasse no pedal, o perseguidor não desgrudava; parecia uma carraça.

171

Aceleravam pela Avenida da Índia e percebeu que se aproximavam do Cais do Sodré. Como por encanto, ou mais provavelmente devido à pressão das circunstâncias, uma ideia começou a formar-se na sua mente.

Um plano.

"O tipo que está atrás de nós", atirou para o companheiro nas suas costas, "é português ou vive em Portugal?"

"Quem? O pistoleiro?"

"Sim. Ele é de cá?"

"Não, claro que não. É de certeza um estrangeiro. Porquê?"

Tomás não respondeu. Desrespeitou o semáforo vermelho situado diante do Cais do Sodré, evitou o trânsito que vinha do outro lado e meteu pela Ribeira das Naus até ao Terreiro do Paço, confiante de que o arrojo da manobra lhe tinha conquistado alguns segundos valiosos.

Olhou para a direita e apercebeu-se de que um cacilheiro estava colado ao cais flutuante e se preparava para iniciar a travessia do Tejo rumo à outra banda. Saltou com a moto para o passeio à frente do Cais das Colunas, acelerou até ao cais dos cacilheiros travou com um guincho diante do hangar de cal branca e suja, a roda traseira a girar em semicírculo como numa prova de motocross.

"Sai!", ordenou, empurrando apressadamente Filipe para fora da mota.

"Espera por mim!"

O empurrão foi tão forte que o amigo caiu no chão.

"O que estás a fazer?"

Mais uma vez Tomás não lhe deu resposta, não porque não o quisesse fazer, mas porque não havia tempo. Rodou o manípulo do acelerador e arrancou com um novo rugido entre uma nuvem arroxeada que os tubos de escape cromados da Kawasaki exalaram num bafo, refazendo o caminho por onde viera.

O perseguidor apareceu diante dele.

"Agora nós", rosnou entre dentes. "Vamos ver se gostas de passar de 172

caçador a caça!..."

Acelerou na direcção do desconhecido e sentiu-o hesitar, surpreendido e desconcertado com a mudança de táctica da sua presa, agora transformada em predador. Tudo se passou tão depressa que o pistoleiro não teve tempo de agir. Tomás carregou sobre ele como uma bala e, no último instante, virou o guiador e, rodando no eixo, embateu com a roda traseira na moto do outro.

Por instantes o mundo deixou de fazer sentido, o alcatrão em cima e o céu azul em baixo, num momento estava sobre a Kawasaki e na fracção de segundo a seguir já rebolava pelo chão, projectado pelo impacto do embate. Rolou sobre si mesmo e ficou imóvel sobre o passeio, embalado pelos grasnidos melancólicos das gaivotas que descansavam sobre as colunas imersas na água.

Sentiu o corpo.

Após uma pausa em que permaneceu quieto no chão, quase receando mover-se, começou por verificar se os dedos mexiam. Assim era. A seguir tentou perceber se tinha alguma dor; tirando o corpo moído, parecia que estava bem. Depois mexeu os braços e a seguir as pernas; pareceu-lhe tudo normal.

Levantou-se devagar, quase a medo, e olhou na direcção do inimigo. O

trânsito parara diante do Cais das Colunas, havia duas motos deitadas no meio da rua sobre uma grande mancha de óleo e viu o homem de negro sentado sobre o alcatrão, combalido com o choque. Não ficara knockout, percebeu Tomás com desânimo, mas estava aberta a oportunidade de que precisava.

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