A lembrança da grande fome, quatro anos antes, ressurgiu na mente de ambos. Milhares de pessoas morreram de fome, dezenas de milhares nas epidemias inevitáveis que se seguiram. E na outra grande fome, ainda maior, vinte anos antes, centenas de milhares haviam morrido.
— Esta é de fato a terra das lágrimas.
Yoshi balançou a cabeça, distraído. Quando falou, a voz saiu áspera:
— Você vai aumentar os tributos por uma décima parte, todos os samurai
— Está certo. — Uma pausa e Hosaki acrescentou, com extremo cuidado: — Estamos numa situação melhor do que a maioria, só comprometemos a colheita do próximo ano. Mas será difícil conseguir taxas de juros normais.
— O que sei ou me importo com taxas de juros? — disse ele irritado, a cara garrada. — Faça o melhor acordo que puder. Talvez tenha chegado o momento de propor ao conselho um ajuste das “taxas de juros”, como meu bisavô.
Há sessenta e tantos anos, o xógum, sufocado sob o peso das dívidas do pai, oito anos de futuras colheitas empenhados, como todos os
Em dois séculos e meio, desde Sekigahara, esse decreto extremo fora promulgado quatro vezes. Causava o caos em todo o país. O sofrimento em todas as classes era imenso, em particular entre os samurai
Até a próxima colheita. Os plantadores precisavam, então, dos mercadores e todas as pessoas precisavam de arroz; assim, com o maior cuidado, as vendas eram efetuadas e o dinheiro escasso — e, por isso mesmo, bastante caro — era emprestado para sementes e ferramentas, contra a próxima colheita. Aos poucos de forma modesta, o dinheiro e o crédito alcançavam os samurai
— Talvez deva mesmo fazer isso, Sire.— Hosaki sentia a mesma repugnância que o marido pelos emprestadores de dinheiro. — Tenho estoques secretos de arroz contra a fome. Seus homens poderiam ficar famintos, mas não morreriam de inanição.
— Ótimo. Negocie esses estoques por armas de fogo.
— Sinto muito, mas a quantidade não seria significativa — disse ela, gentilmente, consternada com a ingenuidade de Yoshi, e se apressou em acrescentar, para desviá-lo desse assunto: — Por outro lado, os tributos não proporcionarão o dinheiro que os
— Neste caso, teremos de recorrer aos emprestadores de dinheiro. Faça qualquer coisa que for necessária. Preciso das armas.
— Está bem. — Hosaki deixou o silêncio se prolongar e, depois, bem devagar, começou a expor um plano por muito tempo ponderado: — Algo que me disse antes de sair de casa me deu uma idéia, Sire. A pequena mina de ouro em nossas montanhas ao norte. Proponho aumentarmos a força de trabalho.
— Mas disse-me muitas vezes que a mina já foi quase exaurida e produz menos receita a cada ano.
— É verdade, mas você me fez compreender que nossos mineiros não são especialistas e me ocorreu que, onde há um veio, pode haver outros também se tivéssemos especialistas para procurá-los. Talvez nossos métodos sejam antiquados. Pode haver técnicos no assunto entre os
Ele fitou-a nos olhos.
— Como assim?
— Conversei com Velho Fedorento... — Era o apelido de um holandês, que anos antes fora mercador em Deshima, contratado para ser um dos tutores de Yoshi e induzido a ficar, com o presente de criadas, uma jovem consorte e muito
— E se eles existirem? — indagou Yoshi, pensando em Misamoto.
— Sugiro que lhes ofereça passagem segura e metade do ouro que descobrirem no prazo de um ano. Há muitos americanos e aventureiros na colônia, pelo que fui informada.
— Gostaria de ver os