— Pistolas ao amanhecer? — escarneceu Norbert, a ação ainda melhor do que esperava. Abruptamente, ele puxou a metade da toalha da mesa, para enxugar o rosto, derrubando os copos. — Perdoem-me pela confusão, mas vocês dois são testemunhas de que eu disse apenas a verdade!

— Peça desculpas... sim ou não?

Norbert pôs as mãos na mesa, olhando furioso para Malcolm Struan, que sustentou seu olhar, com uma raiva intensa.

— Você recebeu a ordem de voltar, tem vinte anos e, assim, ainda é menor perante a lei, e pode-se dizer que mal deixou as fraldas. É a verdade, e aqui vai outra: eu poderia estourar seus miolos, ou cortá-los, com uma das mãos amarrada nas costas. Afinal, você nem sequer consegue ficar em pé direito para lutar, não é mesmo?

A voz era incisiva, impregnada de desprezo.

— Você é um aleijado, jovem Malcolm, e esta é a verdade de Deus! Outra verdade: sua mãe dirige a Struan, vem fazendo isso há anos, e está arrasando a companhia... pergunte a Jamie ou a qualquer outro que seja bastante honesto para lhe responder! Pode se intitular tai-pan, mas não é, não é um Dirk Struan, não é o tai-pan, e nunca será! Já Tyler Brock é o tai-pan e seremos a Casa Nobre antes do Natal. Duelo? Você está louco, mas se é isso o que quer, a qualquer momento!

Ele saiu, batendo a porta.

— Eu gostaria que vocês dois fossem meus padrinhos — murmurou Malcolm, tremendo de raiva.

Dmitri levantou-se, trêmulo.

— Malc, você está louco. Duelar é contra a lei, mas tudo bem. Obrigado pelo almoço.

Ele também saiu. Struan tentou recuperaro fôlego, o coração doendo. Olhou para McFay, que o fitava como se estivesse diante de um estranho.

— Tem razão, Jamie, é uma loucura, mas também Norbert é o melhor da Brock & Sons. Ele levou a melhor sobre você e...

— Lamento a...

— Também lamento. Mas a verdade é que eu não falei a ninguém sobre os mineiros, Vargas nada sabia a respeito, e portanto só pode ter vazado por seu intermédio. Você é o melhor que temos na companhia, mas Norbert vai acabar conosco aqui. Uma bala na cabeça do desgraçado é a melhor maneira de acabar com ele... ou qualquer dos malditos Brocks! Depois de uma pausa, McFay disse:

— Lamento ter falhado, lamento muito, mas... mas não quero ter parte em qualquer duelo, não quero me envolver na sua vendeta. É uma insanidade.

A palidez de Struan aumentou.

— Vamos falar de você. Ou mantém seu juramento sagrado de me apoiar ou está liquidado. Tem três dias para se decidir.

No início daquela manhã, Settry Pallidar e uma tropa de dragões montados seguiu à frente da procissão pela ponte sobre o primeiro fosso do castelo de Iedo.

Passaram entre fileiras de samurais uniformizados, impassíveis, ombro a ombro — milhares de outros haviam margeado todo o percurso —, atravessaram a ponte levadiça e cruzaram os portões de ferro maciço. À frente estavam seus guias, samurais carregando estandartes de três metros de altura, com as insígnias dos roju, três flores de cerejeira entrelaçadas.

Por trás dos dragões, havia meia centena de Highlanders, precedidos pela banda de vinte homens, com seu gigantesco mestre, gaitas de foles a emitir sons agudos, e depois o grupo de ministros, com seus assistentes, todos montados. Os ministros usavam trajes de corte, tricórnios, espadas cerimoniais, casaca ou sobrecasaca contra a brisa constante, à exceção do russo, que vestia um uniforme de cossaco, com capa, e montava o melhor cavalo que existia no Japão, um garanhão castanho, que contava com um bando de vinte cavalariços para cuidá-lo e protegê-lo com suas próprias vidas. Phillip Tyrer e Johann integravam a comitiva de Sir William, André Poncin acompanhava Henri Seratard. Uma companhia de soldados ingleses vinha na retaguarda.

Dois pequenos canhões puxados por cavalos, com suas carroças de carga e guarnições, permaneceram no outro lado da ponte. Isso fora o assunto de dias de discussão, Sir William insistindo que a presença do canhão cerimonial era uma cortesia costumeira à realeza, o Bakufu alegando que quaisquer armas gai-jin eram contra a lei, um insulto a seu reverenciado xógum. O acordo, depois de uma semana de negociações, fora de que o canhão ficaria fora da ponte, as salvas reais não seriam disparadas até que os roju concedessem a permissão formal por unanimidade.

— Nenhuma munição deve ser desembarcada, sinto muito...

Esse problema fora resolvido com a ajuda do almirante francês. Durante uma das intermináveis reuniões, ele aproximara sua nave capitânia de terra e disparara uma bordada de artilharia, sem muita precisão, as balas passando sobre a colônia para caírem, inofensivas, nos arrozais além, mas apavorando todos os japoneses que ouviram os tiros.

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