— Não tentei interrogá-lo, nem a você sobre ele, embora o advertisse contra os japoneses, todos eles. Já é tempo de você me falar a respeito desse Nakama, como um amigo. Lembre-se, Phillip, de que estamos no mesmo lado. Somos servidores, não os chefes, somos amigos e estamos no Japão, onde os gai-jin devem se ajudar uns aos outros... como fiz ao apresentá-lo a Raiko, que o levou a Fujiko, não é? Boa moça, a Fujiko. É melhor ter um pouco do realismo gaulês, Phillip, é melhor manter as informações sigilosas em sigilo, é melhor tomar cuidado com seu Nakama, e não esquecer o que eu disse uma dúzia de vezes: no Japão, só há soluções japonesas.

Quase ao pôr-do-sol, nesse mesmo dia, Yoshi avançou por um corredor de pedra escuro e ventoso, na torre do castelo. Usava agora seu quimono característico, com duas espadas, e um manto de montaria com capuz por cima. A cada vinte passos havia tochas acesas, em suportes de ferro, ao lado de aberturas para arqueiros, que também serviam como janelas. Lá fora, o ar era frio. Havia uma escada circular à frente. Levava a seu estábulo particular, lá embaixo. Ele desceu correndo os degraus.

— Alto! Quem... ah, desculpe, lorde!

O samurai de sentinela fez uma reverência. Yoshi balançou a cabeça e seguiu em frente. Por todo o castelo, soldados, cavalariços e criados se preparavam para dormir, ou para os serviços noturnos, seguindo o costume universal de deitar ao cair da noite. Só os prósperos tinham luz à noite, para ver, ler ou se divertir.

— Alto! Ah, desculpe, Lorde.

A sentinela se inclinou e o mesmo fizeram as duas seguintes. No pátio do estábulo, concentrava-se uma guarda pessoal de vinte homens, junto a seus pôneis. Entre eles se encontrava Misamoto, o pescador, samurai e ancião de faz-de-conta. Agora, vestia-se pobremente, como um infante comum, desarmado e assustado. Havia também ali dois palanquins fechados, bastante leves, projetados para transporte rápido. Cada um se encaixava em duas hastes, com arreios para pôneis de sela nas extremidades. Todos os cascos estavam cobertos e tudo aquilo fazia parte de um plano formulado por Yoshi, junto com Hosaki, alguns dias antes.

A janela de um palanquim foi entreaberta. Ele viu Koiko espiar. Ela sorriu, acenou com a cabeça em cumprimento. A janela foi fechada. A mão de Yoshi apertou o cabo da espada. Ele foi abrir a porta do palanquim, o suficiente para se certificar de que era ela mesma, e que se encontrava sozinha. Quando era muito jovem, o pai lhe incutira com veemência, palavra por palavra, a primeira lei da sobrevivência:

— Se for apanhado desprevenido, traído desprevenido, morto desprevenido, é porque falhou em seu dever comigo e com você mesmo. A culpa será toda sua, porque deixou de verificar pessoalmente e de planejar contra qualquer eventualidade. Não há desculpa para o fracasso, exceto o karma... e os deuses não existem!

Um sorriso rápido para tranquilizá-la. Yoshi fechou a porta e foi verificar se o outro palanquim se achava desocupado, disponível para seu uso, caso precisasse. Satisfeito, deu o sinal para os homens montarem. Isso foi feito num silêncio quase total, o que também o agradou... ordenara que todas as armaduras e arreios fossem abafados. Uma última conferência silenciosa, mas ele não pôde sentir qualquer sinal de perigo. O fuzil novo estava num coldre na sela, a bolsa de munição cheia, as outras quatro armas penduradas nos ombros de seus atiradores de mais confiança. Sem qualquer barulho, ele subiu na sela. Outro sinal. A guarda avançada e o porta-estandarte partiram. Yoshi seguiu atrás, com os dois palanquins e os outros homens em sua esteira.

O progresso foi rápido e quase silencioso. Percorreram a passagem para a fortificação seguinte, longe dos caminhos e dos portões principais. Em cada posto de controle, as sentinelas gesticulavam para que passassem, sem qualquer dificuldade. Em vez de entrar no labirinto do castelo, foram para um prédio grande, no lado norte, junto a uma das maiores fortificações. Havia uma guarda enorme no lado de fora. No momento em que Yoshi foi reconhecido, as portas altas foram abertas, para deixá-lo passar. Lá dentro, havia um picadeiro grande, de terra batida, todo fechado, teto alto, em abóbada, com uma galeria para observadores. Umas poucas tochas, aqui e ali. As portas foram fechadas depois que eles entraram.

Yoshi trotou até a vanguarda da coluna e atravessou a arcada no outro lado, passando por baias e salas de arreios. Todas estavam vazias. Aquela área tinha um calçamento de pedra, o ar impregnado pelo cheiro de esterco, urina e suor. Mais além, recomeçava o chão de terra batida e havia outra arcada, dando para um picadeiro interno, bem menor. Terminava em mais uma arcada, mal iluminada. Yoshi esporeou seu pônei, mas parou subitamente.

A galeria em torno do picadeiro se encontrava repleta de arqueiros em silêncio. Nenhum tinha flechas em seus arcos, mas todos no picadeiro sabiam que morreriam... se fosse dada a ordem.

Перейти на страницу:

Все книги серии Asian Saga (pt)

Похожие книги