Vargas deu um passo para o lado e fechou a porta depois que o sacerdote entrou.

O padre tentou disfarçar seu nervosismo. Por várias vezes se encaminhara para aquele prédio, a fim de discutir a conversão de Struan ao catolicismo, mas sempre parara no meio do caminho, prometendo a si mesmo que voltaria no dia seguinte, mas nunca se aproximando de seu objetivo, com medo de cometer um erro, tropeçar nas palavras. Em desespero, procurara André Poncin, a fim de arrumar um encontro. Sentira-se chocado pela maneira como Poncin e depois o próprio ministro francês — que raramente lhe falava — haviam reagido, dizendo que tal conversa era prematura, que o trabalho de Deus exigia paciência e prudência, proibindo o contato, pelo menos por enquanto.

— Bom dia — murmurou Malcolm.

Era a primeira vez que qualquer um dos mercadores protestantes o convidava para ir a seu escritório. Por todo o mundo protestante, os sentimentos contra os católicos e seus sacerdotes eram antagônicos, com acusações de pogroms sangrentos e guerras religiosas, recentes e jamais esquecidas, lembrando-os do controle implacável que exerciam sobre os convertidos e os países que dominavam... e os protestantes eram igualmente detestados pelos católicos, e ainda por cima hereges segundo as convicções católicas.

— As bênçãos de Deus para você — murmurou padre Leo, hesitante. Antes de deixar seu pequeno bangalô, ao lado da igreja, ele fizera uma prece para que o chamado fosse sobre o que tanto ansiava. — O que deseja, meu filho?

— Quero que celebre meu casamento com miss Angelique.

Malcolm sentiu-se espantado por constatar que sua voz soava muito calma, com uma repentina consternação por ter dito aquilo, até por chamar o padre, compreendendo claramente as implicações do que pedira — A mãe terá um ataque, nossos amigos e todo o nosso mundo vão pensar que enlouqueci...

— Deus seja louvado! — exclamou o padre Leo, extasiado, em português: os olhos fechados, os braços erguidos para o céu. — Como são maravilhosos os caminhos de Deus! Eu agradeço, Senhor, agradeço por ter respondido às minhas preces, e que eu seja digno do Seu favor!

— O que disse? — indagou Malcolm.

— Ah, desculpe, meu filho — disse ele, voltando a falar em inglês. — Apenas agradecia a Deus por ter lhe mostrado a luz, em sua misericórdia.

— Ahn... xerez?

Malcolm não pôde pensar em outra coisa para dizer.

— Obrigado, meu filho... mas, primeiro, não quer rezar comigo?

O padre ajoelhou-se, fechou os olhos, uniu as mãos em oração. Embaraçado pela sinceridade do homem — embora ignorando a oração como insignificante — e de qualquer forma incapaz de se ajoelhar, Malcolm permaneceu sentado, fechou os olhos, fez uma pequena prece a Deus, certo de que Deus compreenderia seu lapso momentâneo, tentando se convencer de que era certo pedir àquele homem para fazer o que era necessário.

Não importava o fato de que a cerimônia provavelmente seria inválida em seu mundo. Seria válida para Angelique. Poderia se unir a ele no leito conjugal com a consciência limpa. E depois que assentasse a tempestade inicial em Hong Kong, e sua mãe fosse conquistada — ou mesmo que não fosse —, assim que ele alcançasse a maioridade, em maio, uma cerimônia apropriada corrigiria qualquer pequeno erro.

Ele entreabriu os olhos. Padre Leo ainda continuava perdido no latim incompreensível. A oração se arrastou, interminável, seguida pela bênção. Quando acabou, padre Leo levantou-se, os olhinhos pretos faiscando, entre as bochechas morenas.

— Por favor, permita que eu sirva o xerez, para poupá-lo da dor, senhor, pois agora sou também seu servidor — disse ele, na maior jovialidade. — Como estão seus ferimentos? Sente-se melhor?

— Um pouco. Agora... — Malcolm descobriu que não era capaz de chamá-lo de “padre”. — Agora, sobre o casamento, eu...

— Será celebrado, meu filho, e celebrado de uma maneira maravilhosa, eu prometo. — Como são extraordinárias as obras de Deus, pensou padre Leo. Não violei a promessa que fiz ao ministro Seratard, e Deus trouxe esse pobre rapaz para mim. — Não se preocupe, senhor, é a vontade de Deus ter me chamado, e tudo será feito pela glória de Deus.

Padre Leo entregou um copo cheio a Malcolm, serviu-se em outro, derramando um pouco.

— À sua futura felicidade e à misericórdia de Deus!

Ele bebeu, depois sentou na cadeira, com tanta benevolência — a mesma cadeira que bem pouco tempo antes fora ocupada com tamanha rejeição —, que Malcolm sentiu-se ainda mais apreensivo.

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