— Como? — O reverendo Michaelmas Tweet quase deixou cair o copo, a dentadura chocalhando, ele balbuciou: — Impossível!

— Não é, não. Há muitos precedentes para reduzir os proclamas que devem ser lidos na igreja em três domingos sucessivos para apenas um.

— Mas eu não posso... você é menor, e ela também, uma católica ainda por cima, não é possível... não posso fazer isso.

— Claro que pode. — Confiante, Malcolm repetiu o que Heatherly Skye mais conhecido por “Heavenly”, o celestial, o único advogado em Iocoama, além de juiz de instrução e agente de seguros, lhe dissera: — O fato de que sou menor de idade só se aplica no Reino Unido, não nas colônias, ou no exterior, e só quando pai está vivo. O fato de ela ser católica não tem importância, se não importa para mim. E ponto final. Terça-feira, dia 9, é uma ocasião auspiciosa para casa. Manteremos tudo na maior discrição até lá.

Para diversão de Malcolm, a boca de Michaelmas Tweet abriu e fechou, com a de um peixe, nenhum som saiu. Trêmulo, o clérigo levantou-se, serviu-se de mais xerez, tornou a arriar na cadeira.

— Não posso.

— Procurei orientação legal e fui informado de que posso. Também tenciono conceder a você e sua igreja um estipêndio extra... quinhentos guinéus por ano.

Ele sabia que o homem ficaria fisgado pela oferta, três ou quatro vezes o seu salário atual, e o dobro do que o advogado aconselhara: Não estrague o velho peidorrento!

— Estaremos na igreja no domingo para ouvirmos a leitura dos proclamas. Terça-feira será o grande dia, e você receberá cem guinéus adiantados por seu trabalho. Obrigado, reverendo.

Ele se levantou, mas Tweet não se mexeu. Havia lágrimas em seus olhos.

— Qual é o problema?

— Não posso fazer o que me pede — balbuciou Tweet. — Não é possível. Deve compreender... mesmo que esse conselho seja correto, o que duvido... sua mãe me escreveu, formalmente, pela última correspondência, dizendo... que seu pai a tornara a guardiã legal dos filhos, e você fora proibido de casar.

As lágrimas escorriam pelas faces, os olhos remelentos estavam injetados.

— Deus do Céu, é tanto dinheiro, mais do que já sonhei, mas não posso, não posso ir contra a lei, nem contra sua mãe. Oh, Deus, não!

— Mil guinéus

— Oh, Deus, não, não... por mais que eu queira o dinheiro... não entende... o casamento não seria legal... é contra a lei da Igreja. Deus sabe que sou um grande pecador, mas não posso fazer isso... se ela escreveu para mim, também escreveu, com toda certeza, para Sir William, que deve sancionar um casamento assim. Deus me perdoe, mas não posso...

Ele saiu da sala, cambaleando. Malcolm ficou olhando para suas costas. Incapaz de falar, a mente atordoada, a sala se transformando de repente num túmulo. O plano, formulado com a ajuda de Heatherly Skye, era perfeito. Fariam um casamento discreto, com a presença apenas de Jamie, talvez Dmitri, e em seguida ele partiria para Hong Kong, depois do duelo, chegando ali antes do Natal, como a mãe pedira, e antes que ela pudesse receber a notícia. Angelique seguiria no navio seguinte.

— Aqueles a quem Deus juntou que nenhum homem... ou mulher... separe — entoara Skye, quando ele o consultara.

— Perfeito!

— Obrigado, tai-pan. Meus honorários são cinqüenta guinéus. Poderia... hum... me dar um adiantamento... em dinheiro, por favor?

Cinqüenta guinéus eram um absurdo. Mesmo assim, Malcolm Struan lhe dera dez soberanos, com vales da Casa Nobre para o restante, e voltara para casa, sentindo-se mais satisfeito que em qualquer outro momento das últimas semanas.

— Parece muito feliz hoje, Malcolm. Boas notícias?

— Isso mesmo, minha querida Angel, mas só partilharei com você amanhã. Quando veremos nosso retrato? Seu vestido estava maravilhoso.

— Demora um pouco para revelar, o que quer que isso signifique. Talvez amanhã. Você estava muito bonito.

— Acho que devemos dar uma festa. Será maravilhoso...

Mas agora, com a festa marcada para aquela noite, não seria tão maravilhoso assim. Malcolm sentia uma profunda depressão. Haveria algum meio de forçar Tweet? Deveria procurá-lo de novo amanhã, depois de passado o choque inicial? Mais dinheiro? Sir William? Uma súbita idéia. Ele tocou a sineta.

— Pois não, tai-pan?

— Vargas, corra até a igreja católica, e procure o padre Leo. Pergunte a ele se pode me fazer uma visita.

— Claro, tai-pan. Quando ele deve vir?

— Agora, o mais depressa possível.

— Agora, tai-pan? Mas é hora do almoço...

— Agora, por Deus! — gritou Malcolm, na maior frustração por ter de pedir a outros as coisas mais simples, que poderia fazer pessoalmente antes da Tokaidô, que Deus amaldiçoe aquele porco, que Deus amaldiçoe a Tokaidô, é como a.C. e d.C para mim, só que o mal é agora, não o bem. — Agora. E trate de se apressar!

Vargas estava pálido ao sair apressado. Enquanto esperava, Malcolm tentou pensar numa maneira de pressionar Tweet, deixou a mente vaguear, enquanto os minutos passavam devagar, e foi se tomando cada vez mais enfurecido e determinado.

— Padre Leo, tai-pan.

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