— Agora, seu casamento será o melhor e o maior jamais realizado. — O padre pôs-se a discorrer a respeito, com um entusiasmo tão intenso que Malcolm ficou ainda mais deprimido, pois queria que aquele casamento temporário fosse o mais discreto possível. — Devemos ter um coro e um órgão, novas vestimentas, taças de prata para a comunhão. Mas antes desses detalhes, meu filho, há muitos planos maravilhosos para acertar. As crianças, por exemplo, agora serão salvas, serão católicas, salvas do purgatório e das agonias das chamas eternas do inferno!
Malcolm limpou a garganta.
— Certo. O casamento deve ser na próxima semana; terça-feira é o melhor dia.
Padre Leo piscou, aturdido.
— Mas temos de pensar na sua conversão, meu filho. Isso leva tempo, e...
— Eu... não quero me converter, ainda não, embora concorde que as crianças serão católicas. — Serão criadas muito bem, serão inteligentes, raciocinou Malcolm, sentindo-se mais angustiado a cada momento. Poderão escolher por si mesmas, quando se tomarem adultas... Mas o que estou pensando? Muito antes disso, casaremos da maneira certa, numa igreja apropriada. — Por favor, na próxima semana. Terça-feira.
Os olhos do padre não mais sorriam.
— Não vai abraçar a verdadeira fé? E a sua alma imortal?
— Não, obrigado, não no momento, mas é claro que pensarei a respeito. As almas das crianças... isso é o importante... — Malcolm tentou parecer mais coerente. — Eu gostaria que o casamento fosse discreto, uma cerimônia simples, na terça-feira...
— E sua alma imortal, meu filho? Deus lhe mostrou a luz, sua alma é ainda mais importante do que esse casamento.
— Já disse que pensarei a respeito. Agora, vamos tratar do casamento. Terça-feira é o dia perfeito.
O padre largou o copo, a mente atordoada com alegrias, esperanças, indagações, medos, sinais de perigo.
— Mas isso não será possível, meu filho, por muitas razões. A moça não é menor de idade? É preciso obter a aprovação do pai dela, com os documentos necessários. E o mesmo acontece com você, não é mesmo?
— O problema de ser menor? — Malcolm forçou uma risada. — Não se aplica ao meu caso, não quando o pai está morto. É a lei inglesa. Verifiquei com... o Sr. Skye.
Ele quase disse Heavenly e se arrependeu no mesmo instante de ter mencionado o advogado, pois recordou que Angelique lhe dissera que o padre Leo detestava o homem, detestava o apelido, considerando-o uma abominação, já que era um agnóstico declarado.
— Essa pessoa? — A voz de padre Leo se tornou dura de repente. — Sua opinião terá de ser confirmada por Sir William, pois ele não merece a menor confiança. Quanto ao pai da senhorita, ele pode vir de Bangkok, não é?
— Ele... Creio que ele voltou para a França. Mas sua presença não será necessária. Tenho certeza que monsieur Seratard poderá representá-lo. Terça-feira será o melhor dia.
— Mas por que a pressa, meu filho? Ambos são jovens, têm muita vida pela frente, e é preciso considerar sua alma. — Padre Leo tentou um sorriso. — Foi a vontade de Deus que o enviou para mim e dentro de um ou dois meses...
— Não, não pode ser dentro de um ou dois meses — insistiu Malcolm, prestes a explodir, a voz estrangulada. — Na terça ou quarta-feira, por favor.
— Reconsidere, meu filho. Sua alma imortal deve...
— Esqueça minha alma... — Malcolm fez uma pausa, para se controlar. — Pensei em oferecer uma doação à igreja, embora não seja... não seja no momento a minha igreja... uma doação generosa.
Padre Leo ouviu o “no momento”, reparou como a palavra “generosa” fora pronunciada, sempre consciente de que o trabalho de Deus neste mundo exigia servidores práticos e soluções pragmáticas. E recursos. E influência. E esses dois fatores essenciais só vinham dos bem-nascidos e ricos, não havia necessidade de lembrá-lo de que o
Ele empurrou esse problema para o lado. A vontade de Deus é a vontade de Deus.
— O casamento será celebrado, meu filho, não se preocupe, eu prometo... mas não na próxima semana, nem na seguinte, pois há muitas barreiras.
Malcolm tinha a sensação de que seu coração estava prestes a explodir.
— Deus Todo-Poderoso, se não pode ser na próxima semana, ou na seguinte, então não adianta. Tem de ser agora... ou nada.
— Mas por quê? E por que um casamento particular, meu filho?
— Tem de ser agora ou nada — repetiu Malcolm, o rosto contraído. — Vai descobrir que sou um bom amigo... preciso de sua ajuda... Pelo amor de Deus, é uma coisa tão simples nos casar!
— É, sim, por Deus, mas não por nós, meu filho. — O padre suspirou, levantou-se. — Pedirei a orientação de Deus. Duvido que... mas talvez. Talvez. Precisarei ter muita certeza.