As palavras pairaram no ar.

— Detesto pôr fezes no seu buquê de rosas, tai-pan — declarou Heavenly Skye, unindo as pontas dos dedos, arriado por trás de sua escrivaninha, na sala pequena e miserável. — Mas já que pede meu conselho profissional, eu diria que seu padre Leo não merece a menor confiança, a menos que se converta. Não há a menor possibilidade de que isso possa ser feito a tempo, e eu não aconselharia, de jeito nenhum. Ele vai se esquivar como um fogo-fátuo, suas datas vitais vão passar, e se sentirá cada vez mais angustiado.

— Mas o que posso fazer, Heavenly?

Skye hesitou, assoou o nariz bulboso, limpou o pince-nez, um recurso predileto para ganhar tempo e se controlar, ou para encobrir um lapso, ou até mesmo, como naquele caso, para conter um sorriso radiante.

Era a primeira vez que alguém importante o consultava desde que abrira seu próprio escritório, H. Skye, Esq., antes Moodle, Putfield & Leech, Procuradores e Advogados, Londres, inicialmente em Calcutá, dez anos antes, depois em Hong Kong, e agora aqui. Depois de tanto tempo, tinha um cliente perfeito, em potencial: rico, dominado pela ansiedade, com um problema simples, que podia se tornar cada vez mais complicado, várias possibilidades a longo prazo, do princípio ao fim. E grandes honorários por uma solução, e eram várias, algumas boas, algumas Violentas.

— Não posso imaginar uma situação mais difícil — disse ele, solene desempenhando seu papel, gostando e admirando o jovem, não apenas como cliente, e depois ofereceu uma chave: — O nó górdio, hem?

Malcolm sentia-se angustiado. Era evidente que Heavenly tinha razão, o padre Leo não merecia confiança. Mesmo que eu me convertesse... não posso, seria demais... Ele levantou os olhos, abruptamente.

— Nó? Nó górdio? Isso foi resolvido! Ulisses cortou-o em dois. Não, foi Hércules.

— Desculpe, mas foi Alexandre, o Grande, em 333 a.C.

— Não importa quem o tenha feito, meu problema é... Heavenly, ajude-me a cortar meu nó, e terá minha eterna gratidão e quinhentos guinéus...

O sinal de aviso do mestre do porto ressoou pela colônia. Eles olharam pelas janelas sujas. O escritório de Skye ficava no prédio e armazém de Lunkchurch, cheio de livros, de frente para o mar. Para a alegria de ambos, a esquadra contornava o promontório, a nave capitânia à frente, bandeiras hasteadas. Sentiram o maior orgulho, e alívio ao mesmo tempo. Salvas de canhões trovejaram da praia e dos navios, o H.M.S. Pearl o mais exuberante, a esquadra respondendo. Os dois homens soltaram gritos de alegria e Skye comentou:

— Podemos agora lidar com os japas e dormir em paz em nossas camas. — Indiretamente, ele voltou ao assunto em questão, invejando-o por Angelique, e determinado a ajudar. — Não é difícil resolver o problema dos japas, Willie precisa apenas ser objetivo e decidido. O velho punho de ferro em luva de ferro, ou veludo, aplica-se na maioria dos casos, se não mesmo em todos. Como acontece com o seu.

Malcolm Struan fitou-o nos olhos.

— Como? Como? Se resolver meu problema, você pode... pode indicar seu preço. — Cansado, ele pegou suas bengalas. — Dentro de limites razoáveis.

— Um momento, tai-pan! — exclamou Skye, limpando os óculos.

Meu preço não será apenas dinheiro, não da Casa Nobre, cuja influência pode me ajudar a ser juiz em Hong Kong, ah, que alegria será! Meu único dilema é se devo revelar a solução agora, ou esperar, e me arriscar a perder a iniciativa. De jeito nenhum! Uma ave na cama vale duas na Yoshiwara.

Não mais solene, ele tornou a ajeitar o pince-nez na ponta do nariz, agora como portas gêmeas dominando o rosto rosado e infantil, que parecia transbordar ao redor.

— Tive uma idéia repentina, tai-pan. Poderia resolver seu problema, no prazo que precisa. Por que não faz a mesma coisa que sua mãe?

Malcolm se mostrou aturdido por um instante e, depois, o significado se tornou claro.

— Ah, fugir para casar? Pensei nisso — disse ele, irritado —, mas ir para onde, e quem iria celebrar a cerimônia, já que estamos a um milhão de quilômetros de Macau?

— O que Macau tem a ver com isso? — indagou Skye.

— Todos sabem que o pai e a mãe fugiram e casaram na igreja anglicana em Macau, a cerimônia realizada depressa, por causa da influência do avô.

Skye sorriu, sacudiu a cabeça.

— Essa é a história publicada, mas não a verdadeira. Seu capitão Orlov casou-os a bordo do clíper China Cloud, em viagem de Macau para Hong Kong... seu avô tornara seu pai mestre para essa curta viagem e, como sabe, a lei do tai-pan é de que no mar o mestre era a lei do navio.

Struan estava espantado.

— Não acredito nisso.

— O primeiro atributo de um bom advogado, e sou um bom advogado, Sr. Struan, é ser um bom ouvinte, o segundo é ter um faro para fatos e segredos, o terceiro, ser discreto. É fundamental saber tudo o que puder sobre seus clientes em potencial mais importantes... o melhor para ajudá-los na adversidade.

Ele aspirou uma pitada de rapé, espirrou.

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