E nossa casa se encontra em turbilhão, pensou Chen, contrariado. Ah Tok se mostra mais difícil do que nunca. Ah Soh resmunga pelo trabalho extra e a preocupação, os cozinheiros se queixam da perda de apetite do amo, os criados lamentam que nada o agrada, e tudo porque essa prostituta bárbara, que mais parece uma vaca, não quer cumprir o seu dever. A opinião geral entre os criados era a de que ela devia possuir uma dessas
— Ah,
— Seu amo e senhor sabe exatamente o que você quis dizer.
Malcolm tirou a camisa, com alguma dificuldade. Seu tio, Gordon Chen quem muito prezava, instruíra-o sobre a obra do imperador Kung, ressaltando que aquelas informações, assim como outros importantes conhecimentos sobre
— Você não passa de um patife impertinente — acrescentou Malcolm, em inglês, sua principal defesa contra Chen e Ah Tok. Ele jamais conseguia levar a melhor sobre eles em cantonês, mas enfurecia-os quando falava em inglês — E sei que estava tentando depreciar a ama. Mas, por Deus, é melhor parar com isso.
O rosto redondo se contraiu.
—
— Essa não! — escarneceu Malcolm. — Palavras de uma língua viperina são tão preciosas quanto espinhas de peixe mofadas para um homem faminto.
Ele percebeu um envelope na cômoda e perguntou:
— O que é aquilo?
Chen foi buscar, apressado, feliz porque a conversa se desviara de sua pessoa.
— Um demônio estrangeiro chegou esta noite à sua procura. Nosso cambista Vargas o recebeu. O demônio estrangeiro disse que a carta era urgente, por isso Vargas pediu que ele a deixasse aqui, para o caso de nosso ilustre amo querer lê-la de noite.
A letra não era familiar.
— Que demônio estrangeiro?
— Não sei,
Malcolm sacudiu a cabeça, bocejou, pôs o envelope na mesinha-de-cabeceira e dispensou-o. O vidro de medicamento parecia chamá-lo.
— Não vou tomar — murmurou ele, a voz firme.
Estendeu a mão para diminuir a chama do lampião a óleo, mudou de idéia e abriu a carta, com súbita expectativa, pensando que podia ser de Heavenly, ou mesmo do padre Leo.
A assinatura era tão impecável quanto a letra no resto da carta.
35
Terça-feira, 2 de dezembro:
— Bom dia, Sr. Gornt. Permita que lhe apresente o Sr. McFay, chefe da Struan no Japão. Por favor, fique à vontade... você também, Jamie. Café, chá, xerez, champanhe?
— Nada, obrigado, Sr. Struan.
— O Sr. McFay é um dos meus padrinhos. Os detalhes, pelo que creio, devem ser acertados entre os padrinhos, não é mesmo?
— É, sim, senhor. Já me encontrei com o Sr. Syborodin, mas não conversei nada com ele, de acordo com os desejos do Sr. Greyforth.