E nossa casa se encontra em turbilhão, pensou Chen, contrariado. Ah Tok se mostra mais difícil do que nunca. Ah Soh resmunga pelo trabalho extra e a preocupação, os cozinheiros se queixam da perda de apetite do amo, os criados lamentam que nada o agrada, e tudo porque essa prostituta bárbara, que mais parece uma vaca, não quer cumprir o seu dever. A opinião geral entre os criados era a de que ela devia possuir uma dessas ravinas vorazes contra as quais o imperador Kung alertara:

Há algumas que os deuses aliaram aos demônios, com uma força magnética tão grande que levam os homens à loucura, e os fazem esquecer uma verdade imortal, a de que uma Yin é como qualquer outra quando a necessidade é intensa, e pior, quando tal Ravina finalmente se abre para receber o Yang, esse Céu se torna o Inferno, pois nunca há suficiente.

— Ah, tai-pan — disse Chen, ajudando-o a se despir —, esta pessoa apenas dizia que seu banquete agradou a todos.

— Seu amo e senhor sabe exatamente o que você quis dizer.

Malcolm tirou a camisa, com alguma dificuldade. Seu tio, Gordon Chen quem muito prezava, instruíra-o sobre a obra do imperador Kung, ressaltando que aquelas informações, assim como outros importantes conhecimentos sobre yang e yin, deveriam ficar entre os dois, sendo mantidos em segredo de sua mãe.

— Você não passa de um patife impertinente — acrescentou Malcolm, em inglês, sua principal defesa contra Chen e Ah Tok. Ele jamais conseguia levar a melhor sobre eles em cantonês, mas enfurecia-os quando falava em inglês — E sei que estava tentando depreciar a ama. Mas, por Deus, é melhor parar com isso.

O rosto redondo se contraiu.

Tai-pan — disse Chen, em seu melhor cantonês, enquanto o ajudava a deitar —, esta pessoa só tem os interesses do amo acima de qualquer outra coisa.

— Essa não! — escarneceu Malcolm. — Palavras de uma língua viperina são tão preciosas quanto espinhas de peixe mofadas para um homem faminto.

Ele percebeu um envelope na cômoda e perguntou:

— O que é aquilo?

Chen foi buscar, apressado, feliz porque a conversa se desviara de sua pessoa.

— Um demônio estrangeiro chegou esta noite à sua procura. Nosso cambista Vargas o recebeu. O demônio estrangeiro disse que a carta era urgente, por isso Vargas pediu que ele a deixasse aqui, para o caso de nosso ilustre amo querer lê-la de noite.

A letra não era familiar.

— Que demônio estrangeiro?

— Não sei, tai-pan. Deseja mais alguma coisa?

Malcolm sacudiu a cabeça, bocejou, pôs o envelope na mesinha-de-cabeceira e dispensou-o. O vidro de medicamento parecia chamá-lo.

— Não vou tomar — murmurou ele, a voz firme.

Estendeu a mão para diminuir a chama do lampião a óleo, mudou de idéia e abriu a carta, com súbita expectativa, pensando que podia ser de Heavenly, ou mesmo do padre Leo.

Prezado Sr. Struan: Talvez eu possa me apresentar, Edward Gorra, da Rothwell, de Xangai, antes da Virgínia, no momento aqui em Iocoama, para treinamento com o Sr. Norbert Greyforth, a pedido de Sir Morgan Brock.

O Sr. Greyforth pediu-me para representá-lo, como seu padrinho, na questão particular, embora premente, do duelo para o qual o desafiou. Talvez seja melhor eu procurá-lo amanhã? A parte da manhã seria mais conveniente, por volta de meio-dia, digamos? Tenho a honra de ser seu servidor obediente, Edward Gornt.

A assinatura era tão impecável quanto a letra no resto da carta.

35

Terça-feira, 2 de dezembro:

Bom dia, Sr. Gornt. Permita que lhe apresente o Sr. McFay, chefe da Struan no Japão. Por favor, fique à vontade... você também, Jamie. Café, chá, xerez, champanhe?

— Nada, obrigado, Sr. Struan.

— O Sr. McFay é um dos meus padrinhos. Os detalhes, pelo que creio, devem ser acertados entre os padrinhos, não é mesmo?

— É, sim, senhor. Já me encontrei com o Sr. Syborodin, mas não conversei nada com ele, de acordo com os desejos do Sr. Greyforth.

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