Fora a pior experiência de sua vida, o ataque inesperado, os tiros passando pelas paredes, e no instante seguinte a cabeça do jovem ao seu lado explodira, sem tempo para que ele sequer gritasse. Mas outros gritaram, em parte por pânico, em parte por agonia, enquanto as balas continuavam a ser disparadas. Katsumata, paralisado por um instante, logo orientara a defesa, ordenando que alguns atacassem pela frente, outros pelo fundo. As duas cargas foram rechaçadas. Sumomo não sabia onde se esconder, tinha certeza de que estava tudo perdido, as chamas começavam a envolvê-los, mais gritos soavam, mais sangue era derramado, o fim se aproximava. A prece murmurada, Namu Amida Butsu, Namu Amida Butsu, e depois mãos a agarraram rudemente, empurraram-na para o buraco, atrás de Takeda — que, frenético, puxara outro de sua frente, e Katsumata fizera a mesma coisa —, enquanto seu salvador shishi, cujo rosto ela nunca vira, era morto na luta que se seguira, e que bloqueara o caminho de fuga, até que era tarde demais.

De alguma forma, saíra da escuridão impregnada de ódio para o ar puro. A fuga, a corrida em pânico parecendo interminável, o peito prestes a explodir, e Katsumata os levara, dando muitas voltas, até seu refugio de última instância. A porta dos fundos de Iwakura. E ali, sem demora, fora realizado um conselho de guerra shishi.

Sugiro que nos dispersemos por enquanto — propusera Katsumata. — Vamos nos reagrupar e nos reencontrar na primavera, no terceiro ou quarto mês. Lançaremos nova ofensiva na primavera.

— Por que esperar? — indagara alguém.

— Porque fomos traídos, porque há um espião em nosso meio ou entre nossos protetores. Fomos traídos. Agora, devemos nos resguardar e nos dispersar.

E fora o que acontecera.

— Sumomo, você irá para Koiko...

Mas antes disso, sua desorientação fora terrível, com lágrimas inexplicáveis, o coração disparado, o pânico muito fácil.

— Vai passar, Sumomo — garantira Katsumata.

Mais uma vez, ele acertara. Dera-lhe uma poção, que a fizera dormir e a acalmara. Ao se encontrar com Koiko, já voltara a ser como antes... isto é, quase, não de todo.

— Quando sentir o medo retomando, tome o medicamento, mas só um pequeno gole — recomendara ele. — Dentro de uma ou duas semanas, estar perfeita de novo. Lembre-se sempre de que sonno-joi precisa de você perfeita...

Sumomo saiu de seu devaneio, suando outra vez, ameaçada pelo medo. Ainda era noite. Estendeu a mão para o fardo ao lado de sua cabeça, onde guardava o vidrinho. Mas não encontrou o fardo. Não o trouxera, ao trocar de aposentos. Não importa, pensou ela, não preciso disso, posso muito bem dispensá-lo.

Repetiu essa determinação várias vezes, contorcendo-se na cama, as cobertas úmidas e pegajosas ao seu redor. E depois notou que o guarda continuava a observá-la.

— Um pesadelo, neh?— sussurrou ele, gentil.

Ela acenou com a cabeça, sem dizer nada.

— Eu poderia lhe dar bons sonhos.

O guarda puxou sua colcha para o lado, num convite. Sumomo sacudiu a cabeça. Ele deu de ombros, virou-se para o outro lado e esqueceu-a, considerando-a estúpida por rejeitar tal prazer. Sem se sentir ofendida, ela também virou de costas, apenas um pouco divertida. Estendera a mão para a faca na obi, dentro da bainha. O contato proporcionou-lhe a paz de que precisava. Um último Namu Amida Butsu.

Sumomo fechou os olhos e dormiu sem sonhos.

Koiko estava acordada e satisfeita. Ainda não era o amanhecer. Yoshi dormia ao seu lado, sereno. Era agradável ficar deitada ali, à deriva, sabendo que não teria de suportar o desconforto de outro dia num palanquim, aos solavancos, jogada de um lado para outro, por causa de uma pressa inconveniente. E também porque sua noite fora tranqüila. Yoshi mergulhara num sono profundo. De vez em quando um pequeno ronco o sacudia, mas isso não a incomodava.

— Treinem seus ouvidos, damas — dizia sempre a cortesã aposentada, com uma risada desdentada, para todas as maiko na escola. — Passarão suas vidas profissionais em companhia de velhos. Todos os homens roncam, mas os velhos roncam ainda mais, só que não podemos esquecer que são eles que pagam... os jovens levam flores e também roncam.

Entre todos os homens com os quais ela já deitara, Yoshi era o mais sereno no sono. Desperto, era o mais difícil. Para se antecipar. Para satisfazer. Não fisicamente. Em termos físicos, ele era forte e experiente; por mais que Koiko fosse treinada a permanecer alheia dentro de um abraço, ele sempre a atraía, e na maioria das noites ela também alcançava o esplendor do prazer.

Katsumata era mais como um mago. Acariciava sua imaginação e pensamentos, estimulando-a além de qualquer coisa que ela pudesse imaginar. Ficava exultante quando ela adquiria uma nova habilidade... como treinar os ouvidos para captar as palavras quase inaudíveis.

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