O líder gai-jin rejeitou insolentemente a ordem imperial para deixar Iocoama e eles estão se preparando para nos invadir. Prepare a ordem de mobilização nacional para assinatura do imperador; por este documento apresento a solicitação formal para que o imperador a assine de imediato. Depois, mande cópias urgentes para todos os daimios. Providencie para que o xógum Nobusada retorne a Iedo sem demora, a fim de comandar nossas forças. A princesa Yazu pode — e de preferência deve — permanecer em Quioto. Lorde Yoshi também deve receber a solicitação formal para voltar o mais depressa possível.
O lorde camarista pensou por um instante, concluindo presunçoso que a iniciativa de Saito seria indeferida, e o imperador aconselhado a nunca assinar uma ordem de mobilização. Com o maior cuidado, ele repôs a mensagem no cilindro e tornou a lacrá-lo, com sua cópia secreta do sinete.
— Pode levar e providencie a chegada ao destinatário — ordenou ele.
Ao ficar sozinho de novo, Wakura riu. Guerra! Ótimo. Anjo fora a escolha perfeita para tairo. Todos se afogarão em sua própria urina, os gai-jin, Yoshi, todos eles.
Exceto a princesa. Ela ficará para se tomar uma viúva... e quanto mais cedo, melhor.
39
ALDEIA HAMAMATSU
Segunda-feira, 8 de dezembro:
Sumomo acordou muito antes da primeira claridade. Tivera um pesadelo. Não estava mais na Tokaidô, com Koiko e lorde Yoshi, mas de volta a Quioto, perseguida por soldados do Bakufu, comandados por Abeh, acuada na casa em chamas dos shishi, gritos por toda parte, sangue por toda parte, armas de fogo disparando, espremendo-se em pânico pelo túnel estreito, por trás de Takeda e Katsumata, o buraco mal dando para passar, rastejando, os lados parecendo comprimi-la, deixando-a toda esfolada, cada vez mais estreito. O ar, impregnado de poeira, não era suficiente para sua respiração. Os pés de Takeda logo à frente, enquanto ele se arrastava, ofegando, alguém ou alguma coisa atrás dela, e depois Takeda se transformou em Yoshi, chutando-a, detendo-a, para em seguida desaparecer... e não havia mais nada à frente, apenas um caixão de terra.
Quando o coração se acalmou e os olhos puderam focalizar, na luz tênue da chama do lampião, ela viu um dos guardas observando-a, de seus futons. Ontem à noite ela acompanhara Koiko para uma conversa com Abeh, que lhe dissera para dormir no aposento comunal, havia espaço suficiente para ela num lado, e era um arranjo bastante satisfatório. Quatro guardas usavam o aposento, dois dormindo, dois de vigia. Fora ali que Sumomo arrumara sua cama e não conseguira dormir com facilidade, pois ouvira Yoshi dizer a Koiko que não mais viajariam juntos. Ouvira também Koiko dizer a Abeh:
— Lorde Yoshi decidiu que, a partir de amanhã, eu e meu grupo viajaremos mais devagar.
— O que ele deseja que se faça, dama?
— Ele disse que quer deixá-lo aqui, com dez homens, para me escoltar até Iedo. Sinto muito ser um problema.
— Não é problema para mim, dama, desde que ele esteja seguro.
Seguro e fora de alcance, pensara Sumomo, consternada pela mudança no plano. Muita coisa poderia sair errada dali até Iedo.
Ela acabara dormindo. Para sonhar. Não costumava sonhar. Ao final da noite e no início da manhã ela sempre dizia uma prece, Namu Amida Butsu, apenas o nome do Buda Amida, o que seria suficiente, se houvesse um deus para se orar. Mas esquecera na noite passada. Agora, em silêncio, ela enunciou as palavras e fechou os olhos.
Em momentos, retornou à cabana dos shishi.