— Não é segredo para eles. O Bakufu é como uma peneira de arroz para os interessados, Sire, além de corrupto.

— Nomes, Inejin, e suas cabeças serão espetadas em chuços.

— A começar hoje, Sire. Começar do topo.

— Isso é traição.

— Mas a verdade, Sire. Gosta de verdades, não de mentiras, ao contrário de qualquer líder que já conheci. — Inejin ajeitou melhor os joelhos, a dor quase intolerável. — A questão do espião é complicada, Sire. Foi Meikin quem me falou a respeito dele...

Yoshi soltou um grunhido e Inejin continuou:

— Concordo, Sire. Mas Meikin me falou, Meikin que desviou o intermediário do Bakufu para mim, Meikin que substituirá o falso documento, com grande perigo, pois deve atestar sua veracidade, Meikin que deseja desesperadamente lhe provar sua lealdade.

— Lealdade? Quando sua casa é um santuário para os shishi, um ponto de encontro para Katsumata, um centro de treinamento para traidores?

— Meikin jura que a dama nunca participou de nenhuma conspiração, Sire. Nem ela.

— O que mais ela pode dizer... foi a criada, neh?

— Talvez ela esteja falando a verdade, talvez não, mas também é possível que, por causa de sua dor, Sire, ela agora perceba o erro passado. Uma espiã convertida pode ser muito valiosa.

— A cabeça de Katsumata me faria ter mais certeza. Se capturado vivo, mais ainda.

Inejin riu, inclinou-se para a frente e baixou a voz:

— Sugeri que ela lhe fornecesse o mais depressa possível detalhes sobre o traidor Hiraga, antes que solicite a cabeça dele.

— E a dela.

— A cabeça de uma mulher espetada num chuço não é uma coisa bonita, Sire, quer seja velha ou moça. Essa é uma verdade antiga. Melhor deixá-la em seus ombros e usar o veneno, sabedoria, astúcia ou simples corrupção que uma mulher assim possui em seu proveito.

— Como?

— Primeiro, entregando-lhe Katsumata. Hiraga é um problema mais complexo. Meikin diz que ele é íntimo de um importante ajudante ing’erish do líder ing’erish, chamado Taira.

Yoshi franziu o rosto. Outro presságio? Taira era outro nome japonês o significado, uma antiga família nobre relacionada com a linhagem de Yoshi Serata.

— E daí?

— Esse Taira é importante, um interprete em treinamento. Seu japonês já é muito bom — os ing’erish devem ter uma escola como o senhor propôs, e o Bakufu “considera”.

— Considera, hem? Taira? É um jovem feio, alto, olhos azuis, nariz imenso, cabelos compridos como palha de arroz?

— Isso mesmo, ele é assim.

— Lembro dele da reunião com os anciãos. Continue.

— Meikin soube que o conhecimento dele de nossa língua melhora depressa, com a ajuda de uma prostituta chamada Fujiko, mas ainda mais por causa de Hiraga, que cortou os cabelos ao estilo gai-jin e usa roupas de gai-jin. — O velho hesitou, adorando contar os segredos. — Parece que esse Hiraga é neto de um importante shoya de Choshu, que teve permissão de comprar a posição de goshi para seus filhos, um dos quais, o pai desse Hiraga, é agora hirazamurai. Hiraga foi escolhido para ingressar numa escola secreta de Choshu, onde se mostrou um estudante excepcional e aprendeu um pouco de ing’erish.

Ele suprimiu um sorriso ao ver a expressão de seu lorde.

— Quer dizer que o espião não é um gai-jin, mas esse Hiraga?

— Não, Sire, mas Hiraga pode ser uma valiosa fonte secundária de informações. Se pudesse ser explorado.

— Um shishi nos ajudando? — Yoshi soltou uma risada escarninha. — Impossível.

— Sua reunião ontem, a bordo do navio furansu... foi proveitosa, Sire?

— Foi interessante.

Era impossível manter uma coisa assim em segredo. Yoshi sentiu-se contente por Inejin ter obtido a informação tão depressa. Abeh e meia dúzia de seus homens haviam testemunhado o encontro. Quem falara? Não tinha importância. Era de se esperar. E ele nada dissera de comprometedor.

— Abeh! — gritou ele,

— Pois não, Sire?

— Mande uma criada trazer chá e saquê.

Yoshi não falou mais nada até que fossem servidos e aceitos de bom grado por Inejin. Aproveitou o tempo para avaliar as informações e formular novas perguntas e respostas.

— O que propõe?

— Não caberia a mim propor o que certamente já decidiu, Sire. Mas ocorreu-me que, quando e se o líder ing’erish enviar seu ultimato, o lorde sozinho seria a pessoa perfeita para mediar... sozinho, Sire.

— Hum... E depois?

— Entre outras coisas, poderia pedir para ver esse Hiraga. E assim poderia avaliá-lo, talvez persuadi-lo a vir para o seu lado. Virá-lo em seu proveito. O momento não poderia ser mais oportuno.

— É bem possível, Inejin. — Yoshi já descartara isso por uma idéia muito melhor, que se ajustava ao plano que discutira com Ogama em Quioto, e à sua própria necessidade de iniciar a execução de seu grandioso projeto.— Ou fazer desse Hiraga um exemplo. Capture Katsumata, ele é a cabeça da serpente shishi e se Meikin é o meio para capturá-lo vivo, tanto melhor para ela.

Перейти на страницу:

Все книги серии Asian Saga (pt)

Похожие книги