A alguns quilômetros de distância, na estrada Tokaidô, na estação de posta de Hodogaya, Katsumata esquadrinhava a multidão, de uma janela da casa de chá.
— Seja paciente, Takeda — disse ele. — Hiraga não deve chegar até a metade da manhã. Seja paciente.
— Detesto este lugar — murmurou Takeda.
A aldeia situava-se em campo aberto, com poucos lugares em que poderiam se esconder e a apenas cinco quilômetros da colônia de Iocoama. Estavam na casa de chá da Primeira Lua, a mesma em que Katsumata e o daimio Sanjiro haviam se hospedado, depois do ataque de Ori e Shorin aos
— E se ele não vier?
O jovem coçou a cabeça, irritado, não tendo raspado o queixo nem a cabeça desde a fuga de Quioto.
— Ele virá, se não hoje, amanhã. Preciso falar com ele.
Os dois escondiam-se ali há uma semana. A viagem desde Quioto fora difícil, com muitas fugas por um triz.
— Sensei, não gosto deste lugar, nem da mudança do plano. Deveríamos estar em Iedo, se queremos continuar a luta, ou talvez devêssemos fazer a volta e ir para casa.
— Se quer ir, pode ir. Se quer voltar para Choshu, pode voltar. E na próxima vez em que se queixar, receberá a ordem para partir!
Takeda desculpou-se no mesmo instante e acrescentou:
— Acontece apenas que perdemos homens demais em Quioto, e nem sequer sabemos como os
— Hodogaya é um lugar perfeito para nós e esta estalagem é segura. Avisado de que Yoshi oferecera um prêmio alto por sua cabeça, Katsumata decidira ser prudente e não continuar.
— Amanhã ou depois prosseguiremos a viagem — acrescentou ele, contente pelo valor do jovem como um escudo para suas costas. — Primeiro, Hiraga.
Fora difícil e perigoso entrar em contato com ele. Poucas pessoas podiam passar pelas barreiras de Iocoama ou ter acesso à Yoshiwara dos
Três dias antes, Katsumata descobrira uma criada cuja irmã era parteira e de vez em quando visitava a Yoshiwara. Por um oban de ouro, a parteira concordara em levar uma mensagem à
— Takeda, fique aqui e continue vigiando. Espere com paciência.
Katsumata foi para o jardim, passou pelos portões da frente, saindo para a Tokaidô, movimentada com os viajantes matutinos, palanquins, carregadores, divinhos, escribas, samurais e alguns pôneis, transportando mulheres ou cavalgados por samurais. Todos falando, gritando, ganindo. A manhã era fria, as pessoas usavam casacos acolchoados, esquentavam a cabeça com lenços ou chapéus. Uns poucos samurais fitaram Katsumata, mas não belicosamente. A maneira como ele andava, a penugem na cabeça e no rosto, a espada longa numa bainha as costas, a curta na cintura apregoavam cautela para os inquisitivos. Era evidente que se tratava de um ronin de algum tipo e que seria melhor evitá-lo.
Nos arredores da aldeia, na área da barreira bem guardada, de onde tinha bom campo de visão para o mar e Iocoama, ele sentou num banco, num estande de comida à beira da estrada.
— Chá, que seja fresco, e cuide para sair bem quente.
O assustado vendedor se apressou em obedecer.
Na colônia, um grupo de mercadores a cavalo passou ruidosamente pela ponte; todos ergueram os chapéus ou chicotes de montaria para os guardas no portão norte, que responderam com reverências superficiais. Outros mercadores, ajudantes, soldados, marujos e a gentalha da cidade dos bêbados estavam a pé, todos num passeio na manhã do feriado. Era o dia de ano-novo. Haveria uma corrida de cavalos naquela tarde e, depois, uma partida de futebol entre equipes da marinha e do exército. Fazia frio, mas não muito, o vento era mais uma brisa, mas o suficiente para soprar a maior parte do cheiro de inverno, algas em decomposição e refugos humanos para o interior.
Um dos homens a cavalo era Jamie McFay. Quase ao seu lado seguia Hiraga, um lenço cobrindo a maior parte do rosto, o gorro de montaria baixado sobre os olhos, os trajes de montaria bem cortados. Aquela excursão não era aprovada nem do conhecimento de Tyrer e Sir William, um presente em troca do serviço de intérprete entre Jamie e o
Hiraga dissera no dia anterior:
— Eu responder mais perguntas durante viagem, Jami-sama. Precisar ir Hodogaya, encontrar primo. Por favor?
— Por que não, Nakama, meu velho?
McFay não visitava a aldeia há meses, embora estivesse dentro da área combinada na instalação da colônia, e sentira-se contente pela desculpa. Poucos merrcadores se aventuravam tão longe, agora, sem uma escolta militar, o assassinato de Canterbury e o destino de Malcolm Struan sempre presentes em seus pensamentos.