Cristóvão mostra uma tranquilidade que está longe de sentir e Fernão faz-lhe um sinal cúmplice. São amigos de longa data, unidos por essa fraternidade que a ameaça constante da morte torna indissolúvel. Tinham-se conhecido em Patane, no Sião, e andavam juntos há alguns anos pelos mares da China, quer em missões a mando do capitão de Malaca, quer como soldados mercenários ao serviço dos reis gentios ou ainda na veniaga e no corso com aventureiros da nobreza, como António de Faria, sendo o próprio Cristóvão Borralho um cavaleiro-fidalgo da casa d’el-rei. Navegando meses a fio com as chusmas chins e jaus, tinham aprendido a falar as línguas dos naturais, o que era uma verdadeira dádiva nas presentes circunstâncias.
– Se os mandarins não sentem amor nem piedade pelas suas gentes, muito menos se compadecerão de cossairos93 estrangeiros – reconhece Jorge Mendes. – O povo é mais mal tratado por eles do que pelos diabos do inferno! Por tudo e por nada são metidos em cadeias, açoutados e postos a tormentos das maneiras mais cruéis.
– Por isso esta gente é tão sujeita e medrosa que não ousa falar e menos ainda desobedecer aos seus senhores – apoia Valentim de Alpoim, um veterano das campanhas da Índia. – Sempre os ouvem de joelhos, com a cabeça no chão e o rosto na terra, como se os mandarins fossem relâmpagos que os pudessem fulminar.
– A nós, desculpam-nos por sermos estrangeiros e nunca nos castigaram por não fazermos as cortesias que lhes são devidas – acode Fernão. – Não há dúvida que são cruéis nos castigos, no entanto condenam à morte muito menos do que os nossos juízes. Também não são tão leves no mentir como os nossos e raros aceitam peitas. Fazem justiça tanto aos pobres como aos ricos, até o mais miserável dos homens pode ser ouvido e defender-se, com a ajuda dos Irmãos da Misericórdia. Como aconteceu connosco!
– Justos, eles? Quantas vezes já nos deram açoutes, apesar da apelação da sentença? – berra Joaquim Pereira, de ânimo insofrido e quezilento, sempre disposto a contrariar qualquer partido e a armar querelas. – E dizes tu que não mentem? Bem trapaceiro foi o chaem de Taypor que fabricou as nossas culpas, arrolando testemunhas falsas, além de nos ter roubado tudo quanto tínhamos, que já era bem pouco!
– Ouvimos as queixas dos presos chins, nossos companheiros – retoma Vicente –, de como são esbulhados das suas terras pelo poder dos mandarins e dos capados94 da corte. Se não tem que comer, nem meios de ganhar a vida, como pode esta gente sentir amor pelo rei e seus ministros? Daí que tantos fujam para as montanhas, fazendo-se ladrões ou alevantados contra os seus senhores.
Vicente Morosa, outro veterano de muitas campanhas e homem sisudo que não fala à toa, solta uma risada:
– Quanto às nossas culpas, fabricadas ou não, as acusações até são justas. Meta cada um a mão no peito que achará de que prestar contas. Que andámos nós a fazer nos mares da China, às ordens do capitão António de Faria, senão corso, assaltos, roubos, violações e matanças de gente inocente, quer nos seus barcos quer nos povoados costeiros?
– Para mais em companhia de Quiay Panjão, um cossairo chim! – aquiesce Borralho – Depois da nossa vitória sobre o maldito Coja Acem e da queima do seu hospital, ganhámos tão má fama nas costas de Liampó que, mal tinham rascunho da nossa chegada, as povoações se despejavam de moradores, os quais, com a pressa de fugir, deixavam as suas casas com todo o recheio das fazendas e mantimentos.
– .Que António de Faria mandava recolher e carregar nos juncos – interrompe-o Jorge –, pois já sabia que não encontraríamos naqueles portos quem nos quisesse vender sequer um grão de arroz.
– Deus nos guarde de aparecer algum dos seus capitães ou mercadores com um dos muitos cartazes de salvo-conduto que ele lhes mandou passar, como se fora o governador ou o capitão de Malaca! Se o aytao almirante tiver sequer rascunho dessa arrogância.
– Essa foi de mestre! – bradou Jorge. – Os chins estavam tão cheios de medo que vieram pedir os cartazes e ainda por cima pagaram por eles. Ainda me lembro do teor deles:
Cartaz de Seguro que António de Faria passou aos
Chins, na Cochinchina, em reconhecimento de lhe serem tributários:
Seguro, debaixo da minha verdade, ao Necodá Foão95, para que possa navegar livremente por toda a costa da China, sem ser agravado de nenhum dos meus, com tanto que onde vir portugueses os trate como irmãos.
Outorgado na Ilha de Ainão, no mês de Setembro, do ano de mil quinhentos e quarenta e dois.
António de Faria, Capitão da Armada d’ElRei de Portugal96.