A casa do exilado fervilha de azáfama como uma colmeia zumbidora. O duplo matrimónio terá lugar dentro de dois meses e ambos os noivos, com a ajuda de Vicente, Zeimoto e alguns parentes chins, ajudam o futuro sogro a acrescentar dois pequenos quartos à casa onde passarão a viver. As tias, cunhadas, primas ou sobrinhas de Kexin ocupam-se dos preparativos do casamento e da festa, com as casadas a cuidarem dos presentes de bagatelas, destinados a todos os convidados; moças solteiras vêm ensaiar com as duas noivas as canções e os poemas para os diferentes rituais da cerimónia chim, que será celebrada publicamente pelos monges do templo. Quanto ao casamento cristão, com grande mágoa dos noivas e de seus pais, terá de ser secreto, na privacidade do oratório, onde, por não haver padre para os abençoar, farão os seus votos solenemente diante da cruz com os degredados portugueses como testemunhas.
Do sítio onde está a trabalhar, Fernão ouve a voz de Kexin a dar conselhos às filhas, sentadas a seu lado a bordar as roupas do bragal:
– Lijie, não podes esquecer-te dos deveres que uma esposa tem de cumprir, para ser estimada e bem tratada pelo marido. Não podes preguiçar na cama, como fazes agora, nem ser desmazelada. Tens de te erguer do leito ao primeiro cantar do galo, para lavar as mãos, enxaguar a boca, pentear o cabelo, que deves trazer preso numa rede e coberto com a fita. A tua cabaia tem de estar sempre limpa, brunida e na faixa deves trazer, do lado esquerdo, o pano do pó, o lenço, a faca e a pedra de amolar, o espigão com o espelho de metal para fazer fogo e, do lado direito, a saqueta com a caixa das agulhas, linhas e seda, que são os utensílios próprios de uma mulher diligente. Trata de seguir o exemplo de Meng, que há-de fazer o seu marido muito feliz, porque se persistires nos teus erros, correrás o risco de ser abandonada pelo teu esposo, para tua vergonha e de toda a nossa família.
Ouve os risos de Meng e os protestos da irmã mais nova. A mãe tem razão ao apontar a sua prometida como a esposa perfeita, educada para obedecer, servir e agradar ao marido, que será o centro do seu mundo e da sua vida, adivinhando-lhe as vontades ou mesmo o pensamento, sem nada pedir em troca. Apesar de trabalhar de manhã até à noite para ajudar os pais, Meng parecia uma pintura de livro antigo, com as suas roupas de esmerada limpeza, sem um vinco ou ruga, que lhe acentuavam o donaire e a esbelteza. Talvez não fosse tão bela como a irmã, mas ganhava-lhe em distinção, doçura e sabedoria.
Desde o dia em que o conhecera, Meng achara-o diferente dos companheiros, pressentira o seu sofrimento e compadecera-se dele, decidindo minorar-lhe a tristeza com os seus cuidados; Fernão dera por si a fazer-lhe confidências, contando-lhe como amara Huyen e a perdera num naufrágio. A moça soubera encontrar as palavras certas para o consolar e, embora conhecendo a sua paixão por outra mulher, enamorara-se dele e aceitara-o por marido com alegria. Seria ele capaz de lhe querer com o mesmo ardor que sentira pela sua cauchim? Poderia esquecer o fogo de Huyen, ainda há pouco tão ardente nas suas veias, nos braços deleitosos de Meng, a ponto de não desejar o regresso à pátria? Duvidava.
Contudo, desejava-a. Naquele preciso instante, ao ouvir-lhe o riso, ansiou pelo fim do trabalho, para se ir lavar da poeira das obras, na grande celha protegida por uma cerca de bambu, nas traseiras da casa, onde Meng lhe preparava o banho. Na primeira vez que ela ali o levara, Fernão não suspeitara sequer do que o esperava, esquecido de que a moça, embora sendo filha de um português e cristã, não deixava de ser chinesa, criada e educada como as suas primas ou qualquer outra donzela de Quansy nos usos da sua nação.
Diante da celha de água quente, a noiva pedira-lhe com a maior naturalidade que se despisse e lhe entregasse a roupa, para depois a poder lavar, mostrando-lhe uma veste com uns calções do pai, dobrados sobre o banco, enquanto lançava pétalas de flores na tina e ajeitava os apetrechos do banho. Como ela não arredava pé, Fernão não tivera coragem para lhe desobedecer ou mandá-la embora, com medo de a envergonhar, embora ele mesmo se sentisse corar como uma donzela, enquanto se ia desnudando, escondendo as vergonhas até ao momento de saltar para dentro da tina e se afundar entre as pétalas aromáticas.