A moça viera ajoelhar-se junto dele e, com um pano macio, começara a lavar-lhe as costas, com uma doçura que o amolentava de prazer, tocando-lhe nas cicatrizes das chicotadas com as pontas dos dedos, demoradamente, como se as beijasse; depois, passara-lhe o pano húmido e perfumado pelo rosto e ele cerrara os olhos com volúpia. Meng mergulhara o pano na água e espremera-lho sobre o pescoço e o peito, arrepiando-lhe a pele; e a cicatriz, recebida ao serviço de António de Faria, intumescera e avermelhara-se como se ganhasse vida. Sentira os lábios da noiva poisarem nela, quentes e macios como seda; da cabeça inclinada sobre o seu peito evolara-se um suave aroma de flores, quando a negra cabeleira lhe roçara o queixo. Incapaz de se dominar, Fernão enlaçara-a, estreitando-a contra o seu corpo e beijara-a, sentindo no corpo molhado a paixão com que ela se entregava numa dádiva preciosa. O desterrado chorara de gratidão.

Os sonhos de fortuna que o tinham trazido para a Índia ao cheiro da canela haviam-se gorado, transformando-se num pesadelo sem fim. Ele fora um dos muitos que apostara o seu futuro no Oriente e perdera. Meng era como um porto de abrigo, uma âncora de ternura para a sua desesperada solidão, porque ele já não suportaria por muito mais tempo, sem ensandecer, o desterro naquele fim de mundo. Com o tempo, o carinho que tinha por ela haveria de se mudar em amor.

Tais pensamentos não bastavam para lhe dar tranquilidade ou resignação, antes o faziam joguete de sentimentos contraditórios, que o traziam em ânsias, vendo acercar-se o dia do casamento. Então, a três semanas do enlace, os Fados resolveram interferir de novo e mudar-lhe mais uma vez o curso da vida.

XXIII

Quer a faca caia no melão ou o melão na faca, o melão sofrerá

(chinês)

Carros de Guerra

Os carros de guerra murmuram e matraqueiam

Os cavalos fremem, relincham

Os soldados partem em expedições, arcos e flechas presos ao corpo

Pais, mães, mulheres e crianças correm atrás deles para se despedirem

Na poeira ficou para trás a ponte ao sul de Chabgan

Eles puxam-lhes as roupas, gemem e barram-lhes o caminho

Os seus prantos sobem até às nuvens

Deixar nascer um filho é pura infelicidade

Melhor uma filha

Uma filha pode casar-se com o vizinho do lado

Um filho acaba morto, insepulto, no meio do mato

Senhor, por acaso viu as margens do Oceano azul

Onde, desde tempos antigos, há ossos brancos que ninguém recolhe?

Novas almas se exasperam, velhas almas choram

Debaixo desse céu encoberto, a chuva molha seus gemidos e lamentos144.

(Du Fu)

Começara o quarto da modorra, nessa noite quente de Julho, quando soaram os tiros de aviso, os repiques dos sinos e gongos dos templos, trazendo toda a gente para as ruas. Os sinais de fumo e fogo que se erguem ao céu, em duas torres da muralha, não deixam lugar a dúvidas: os tártaros correm ao assalto da muralha para entrarem em Quansy.

– Vêm da parte donde sopra o vento! Já se lhes sente o fedor do sangue!

– São carniceiros. Não deixam ninguém com vida.

Todos conheciam histórias das suas razias nos lugares fronteiriços que acometiam, há muitos anos. O terror do flagelo que os espera, se o inimigo conseguir penetrar na cidade, parece ensandecer de terror a população e nem a presença do exército que acorrera à muralha ou a formação de cavalaria que se fazia prestes, conseguem sossegá-los. Em todas as casas se ouvem gritos e prantos, pelas ruas corre uma multidão desatinada, alguns quase nus, sem nada levarem de seu, outros carregados com os seus haveres.

– Não há esconderijo seguro! São como furões a caçar coelhos nas luras.

– Livrai-vos das espadas e arcos, se os tendes, porque não lhes podeis fazer frente e tereis morte certa se eles acharem armas em vossas casas.

– Pior é o que fazem às mulheres! Antes lançar-me com as minhas filhas do alto da muralha.

Os degredados portugueses, sem saberem o que fazer, acorrem a pedir conselho a Calvo. A casa está em alvoroço. Meng e Lijie sorriem por entre lágrimas aos noivos, mas a mãe impede-as de irem ao seu encontro, ordenando-lhes que continuem com as suas tarefas.

– O exército tártaro é fortíssimo, disseram-me que são cerca de setenta mil cavaleiros – diz-lhes Calvo, sem disfarçar o receio, parecendo contrariado pela presença dos seus compatriotas. – Não há muralhas que os possam deter e os chins não são adversários à sua altura.

– Que havemos de fazer? – pergunta Borralho, olhando ansioso para Lijie que não cessa de chorar.

Calvo tem lágrimas nos olhos e não responde. Fernão sente o medo a gelar-lhe o sangue.

– Se, como dizeis, eles vão entrar na cidade, tratemos de pôr a vossa esposa e filhos em lugar seguro, quanto antes. Mesmo que não logreis salvar a casa e os bens.

– Os tártaros já estão no pinhal, a légua e meia da cidade! – grita Calvo, de rosto descomposto. – Dentro de duas horas estarão às nossas portas.

As moças redobram o pranto, que se junta ao dos meninos. Os degredados parecem ter perdido o siso, tartameleando, incapazes de falar a propósito.

– Que faremos então? – repete Borralho.

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