A caminho de casa, a lembrança do fracasso trouxe lágrimas aos olhos de Kiyosada: – Um cachorro vivo é melhor que um leão morto? – lançou a pergunta, com desprezo pela sua própria covardia, para a lua que pendia do céu como um balão pálido. Por muito que lhe custasse, tinha de admitir a derrota: sem o concurso dos nanbanjins jamais levaria a cabo aquela tarefa. No entanto, não ousava acercar-se deles para lhes pedir ajuda, porque não confiava, nem acreditava que lhe ensinassem de graça o segredo das armas. Que poderia fazer, se não tinha meios de fortuna para peitar os poderosos tenjikujins? Estava num beco sem saída ao fundo do qual o esperava, já desembainhada, a espada do seppuku com que haveria de rasgar o ventre para resgatar a sua honra e a de toda a família.

Imerso nos seus pensamentos só deu por ter chegado a casa, quando os seus olhos angustiados pousaram no belíssimo rosto da filha que o esperava à porta, ansiosa com a sua demora. Kiyosada soube, nesse instante, que Wakasa seria o remédio e a cura para todos os seus males.

Os parentes olham em silêncio para a moça, apreciando-lhe a beleza luminosa dos dezasseis anos e a graciosidade reverente dos gestos com que se ajoelha e lhes serve as iguarias. Sorriem-lhe em aprovação, mas ela mantém os olhos baixos, alheia ao efeito que causa e, findo o serviço, retira-se com a criada, conforme as instruções que a mãe lhe dera, indo em seguida refugiar-se no jardim em busca de conforto para o seu coração assustado.

Longe do ruído da casa, Wakasa deixa-se impregnar pelo perfume das flores, o som da água na fonte, a doce carícia do sol, procurando fundir-se com aquela natureza que, tal como ela, foi aprisionada e disciplinada para atingir a perfeição. Lembra-se do poema antigo que recita como uma prece: a multidão dos deuses olha-me decerto com piedade, porque eu não cometi qualquer pecado171.

Embora nada lhe tenham dito, sufoca-a o pressentimento de que a reunião dos principais membros da família Yaita foi convocada pelo pai por sua causa, em razão de um negócio demasiado grave para ser resolvido apenas por ele. Revê em pensamento a sua conduta nos últimos meses, sobretudo desde que completou os dezasseis anos, mas não acha nada nas suas palavras e acções de que se possa recriminar ou envergonhar. Poderá o seu karma trazer, das vidas anteriores, uma carga tão pesada que a impeça de ser feliz no presente?

Precisa de serenar o espírito para perceber o que se passa. Uma congregação tão numerosa de parentes só acontecia em tempo de guerra – como ela testemunhara meses antes, quando o pai decidira permanecer com o jovem daimyō, em vez de seguir o Senhor de Shigetoki na fuga ou mudar de campo como haviam feito muitos outros samurais –, em caso de morte, como sucedera com a do venerável avô, ou ainda para tratar de um casamento.

Sente-se desfalecer e encosta-se ao tronco da árvore, desafogando o quimono na frente, para aliviar o aperto no peito que lhe corta a respiração. Seria isso? Teriam os pais decidido casá-la, sendo a reunião convocada para apresentarem o pedido e obterem a aprovação para o noivo? As frequentes visitas que o pai fizera, na última lua, ao templo budista de Jionji seriam para consultar os oráculos e tratar da cerimónia? Se assim fosse, quem seria o pretendente? Como filha obediente e respeitadora, teria de aceitar o esposo que o pai escolhesse, no entanto, como a mãe sempre lhe dera liberdade e a encorajara a expressar os seus pensamentos, esperava que, em chegando o tempo de casar, não lhe impusessem um marido contra a sua vontade.

Por outro lado, o momento não lhe parece propício a matrimónios. A vinda dos nanbanjins estilhaçara a harmonia do seu lar, porque o pai não voltara a ter paz desde que o daimyō o encarregara de fabricar as temíveis teppō. Agora, chegava todas as noites a casa de semblante marcado pelo desespero, as costas vergadas como se carregasse um fardo ou tivesse subitamente envelhecido. Quando saía, manhã cedo, depois de uma noite de insónia, parecia uma assombração do mundo dos mortos; a mãe disfarçava as lágrimas e não respondia às perguntas que ela lhe fazia sobre as causas do seu tormento.

O templo visitado pelo pai era pousada dos tripulantes chins do nanbansen e ela ouvira-o mencionar o bonzo Tadashi Shuza que servia de tçuzzu a Tokitaka para falar com os tenjikujins. Sente uma ponta de ciúme do monge e lamenta a sua condição de mulher, porque, sendo bastante conhecedora do idioma chim, se fosse um rapaz, o pai não hesitaria em usá-la como língua.

Embora os Yaita não fossem ricos, pertenciam a um clã de boa estirpe e Asamia, a sua mãe, provinha da família Narahara, uma gente muito letrada, cujas filhas eram educadas para açafatas das senhoras de Tanegashima, estando Asamia ao serviço da mãe de Tokitaka e Wakasa ao da sua jovem esposa. Fora por isso criada com grande primor, tendo as monjas Nichiren por mestras nas artes corteses da caligrafia, da poesia ou da música, aprendendo também a língua do Grande Ming.

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