Vendo Malaca mais aliviada do perigo, Correia determinara que era tempo de cumprir a ordem do governador que o havia mandado a Pegu assinar o tratado de paz, cujo caminho já deveria estar preparado por Francisco Lampreia e Jorge de Pina, enviados fazia algum tempo a apalpar o terreno e a afastar empecilhos. Já houvera uma feitoria portuguesa no Martavão, mas, três anos antes, um tal Henrique de Leme apresara um barco de mercadorias pegu, provocando a ira dos moradores da cidade que, em retaliação, tinham incendiado a feitoria. Só a muito custo o feitor António Dinis e os restantes portugueses que estavam em terra lograram salvar a pele, fugindo para Malaca.
Correia fizera escala em Pacem para carregar pimenta, em troca dos panos de Cambaia que trouxera de Cochim, por ser essa especiaria a melhor mercadoria para os tratos de lacre e arroz no Martavão, como podia comprovar nesse preciso momento, já no porto, vendo a multidão de barcos que andavam ao frete e iam carregar à cidade de Pegu, que dera o nome ao reino, onde vivia o rei.
Os primeiros contactos com os pegus não foram muito auspiciosos, apesar de os pilotos locais terem acorrido em paraus a remos para rebocarem a nau, onde tinha deflagrado fogo, pelo impetuoso rio Saluém até à barra. Ali esperaram treze dias pela autorização do rei, trazida pelo mandarim Cemim Bolegão, para poderem desembarcar. Por aquelas bandas nada se fazia sem peitas ou odiaas – os presentes oferecidos não só ao rei como aos ministros, a oficiais e a quem quer que mexesse uma palha ao serviço do requerente –, a fim de amaciar vontades, afastar escolhos e acelerar os negócios.
Correia pagou de imediato grossas peitas ao toledão da barra, assim como ao seu filho e ao genro que tinham rebocado a nau; também ao Cemim Bolegão para a autorização de entrar no porto e, por fim, ao toledão ou governador do Martavão e aos xabandares190, seus genros, pelo uso de um gudão ou silo subterrâneo para armazenar as mercadorias, presenteando ainda outros oficiais e criados por vários pequenos serviços. E a procissão ainda ia no adro.
Sempre que desembarcavam para tratar dos negócios da embaixada ou da nau, os portugueses eram rodeados por alcovetos, muito bem trajados, pegadiços como moscas.
– Donde sois? Vindes para tratos de lacre ou de arroz? Quanto tempo ides quedar-vos por cá?
– Haveis mister de esposa que vos cuide, durante a vossa estadia. Vede quão formosas são as nossas mulheres.
Traziam-lhes moças de vários tamanhos, formas ou idades, que os saudavam com muitos sorrisos e meneios provocantes, saracoteando-se de modo a que os panos que lhes cobriam as vergonhas se abrissem na frente e permitissem vislumbrar os seus tesouros mais íntimos, fazendo gala em provocar desejo nos homens com uma descarada promessa de delícias.
Os alcoviteiros apresentavam-nas uma a uma, enunciando os predicados e dons das beldades, a fim de acrescentarem o interesse dos clientes que olhavam embasbacados para o magote de filhas de gente honrada que, com licença de seus pais, vinham oferecer-se seminuas, como vulgares mulheres de partido, para maridar com eles, durante uns dias ou meses, em troca de dinheiro, sem que por isso se sentissem desonradas.
– Fareis o contrato com os pais da moça que mais vos agradar, pelo tempo que aqui estiverdes, e ela vos servirá dia e noite como esposa no barco ou na vossa pousada em terra. Antes de partir, pagar-lhe-eis a quantia acordada.
– Uma esposa a prazo? E se eu quiser tê-la por mulher de novo na próxima viagem?
– Pedi-la-eis e ela vos será dada de novo pelo tempo da vossa estadia.
– E se já tiver casado?
– Virá do mesmo modo.
– E o marido não se anoja?
– Nem que seja o homem mais rico de Pegu, nada dirá. Devo advertir-vos que depois de feita a escolha, não deveis buscar outras mulheres, porque correreis risco de vida.
– E se a moça for virgem? Algumas são bem mocinhas.
– Os pais e os futuros maridos, sobretudo entre a gente nobre, estão dispostos a pagar muito bem a um estrangeiro para que antes da noite de núpcias tire a virgindade à donzela, uma função que repugna aos pegus por ser cousa imunda.
Auspiciosa recepção que prometia um futuro risonho às relações entre gentios e portugueses, todavia comprometida pela traição do grumete Veloso que fugira da nau e, peitado pelos mercadores guzarates – que viam com muito maus olhos a intromissão naquele comércio dos seus maiores rivais e inimigos –, andava a instigar os moradores contra os portugueses. Lampreia e Pina que, embora desavindos, se tinham acolhido à nau para regressarem a Malaca, contaram as atoardas do desertor ouvidas aos pegus seus amigos.
– O filho da puta anda a espalhar na praça que nós não viemos cá para fazer tratos de paz, mas para os espiar. Diz que pretendemos apenas sondar a barra e conhecer a terra, para a nossa armada aí entrar e a conquistar.
– E o governador está a dar ouvidos ao cabrão traidor, porque o aposentou em casa de um filho seu.