Quando o eclipse lançou o seu negrume sobre a terra e o mar, rumes e mouros estremeceram de pavor, lembrando-se de uma antiga profecia: a fortaleza de Diu parecia erguer-se das suas ruínas, avantajando-se como um castelo de sombras pronto a engolir os que ousavam acometê-la.
64 Mercadores.
65 Diogo de Couto, Década Quinta da Ásia.
GOA
Carta de Afonso d’Albuquerque a el-Rei D. Manuel:
Na tomada de Goa e desbarato de suas estâncias e entrada da fortaleza Nosso Senhor fez muito por nós, porque quis que acabássemos um feito tão grande e melhor do que nós poderíamos pedir; ali faleceram passante de trezentos turcos
Depois queimei a cidade e trouxe tudo à espada, e por quatro dias continuadamente a vossa gente fez sangue neles; por onde quer que os podíamos achar, não se dava vida a nenhum mouro, e enchiam as mesquitas deles e punham-lhes fogo: aos lavradores da terra e brâmanes mandei que não matassem. Achámos por conta serem mortas seis mil almas, mouros e mouras, e dos seus peões archeiros, muitos deles faleceram: foi, Senhor, um feito mui grande, bem pelejado e bem acabado, e afora ser Goa uma tão grande cousa e tão principal, ainda se cá não tomou vingança da traição e maldade que os mouros fizessem a Vossa Alteza e a vossas gentes, senão este, o qual soará em toda a parte, e com este temor e espanto fará vir grandes cousas à vossa obediência, sem as conquistardes.
Alguns gentios, homens principais, a que os turcos têm tomado suas terras, sabendo a destruição de Goa, desceram da serra onde estão recolhidos, e vieram em minha ajuda e tomaram os passos e caminhos, e todos os mouros que escaparam de Goa trouxeram à espada, e não deram vida a nenhuma criatura. Roubaram grande haver, porque tomaram todo o dinheiro do pagamento dos soldos que escapou de Goa; nenhuma sepultura nem edifício de mouros não deixo em pé; os que agora tomo vivos mando-os assar: tomaram aqui um arrenegado, e mandei-o queimar.
Goa aos 22 dias de Dezembro de 1510
X
Três coisas são inconstantes: a mulher, o vento e a riqueza
(hindu)
Artigo XXXV, que fala da gente deste reino e de seu sofrimento.
As gentes deste reino de Goa por nenhum tormento não confessarão cousa que façam. Sofrem grandemente e soem ser atormentados de diversos tormentos. Antes morrem que confessar o que determinam calar. E as mulheres de Goa são generosas no vestir, as que dançam e volteiam o fazem com melhor maneira que todalas destas partes. E costuma-se neste reino toda mulher de gentio queimar-se por morte de seu marido. Entre si têm todos isto em preço; os parentes dela ficam desonrados quando se não querem queimar. As que de má mente recebem o sacrifício ou se não querem queimar ficam públicas fornicárias e ganham para as despesas e fábricas dos templos donde são freguesas, no qual ofício morrem. Estes gentios têm uma só mulher por ordenança, e muitos brâmanes prometem castidade e sustêm-na sempre. Nos outros portos de Goa se carrega muito arroz, sal, bétele, areca. E todolos rios têm povoações arredadas d’água, com temor, e os que desta são seguros navegam e os que não, perdem-se e estão da mão do Sabaio, com capitães que recolhem as rendas da terra. E deles põem gente de guarnição de cavalo, porque têm continuamente guerra com as terras de Narsinga66.
(Suma Oriental, de Tomé Pires)
Foi no dia vinte e cinco de Novembro, do ano de mil quinhentos e dez, dia de Santa Catarina, que Afonso de Albuquerque, com a ajuda do corsário Timoja, tomou Goa pela segunda vez às forças de Hidalcão. Cobiçara-a desde o momento em que a vira, por ser bem construída, fortificada e se achar em lugar privilegiado das derrotas comerciais. As muralhas antigas não são muito altas, mas estão rodeadas por uma profunda cava e a ilha tem outros lugares fortes, como um castelo em Bardês, junto da embocadura do rio, que a protege dos inimigos de terra firme.
A cidade e os seus populosos arrabaldes ocupam a ilha de Goa, separada de terra firme apenas por um braço de mar; o rio Mandovi, com mais de três léguas de extensão, entra do lado norte da cidade, contorna a ilha, em forma de meia-lua, indo desaguar no braço de mar a sul. Na posse dos portugueses, depressa substituiu Cochim, enquanto entreposto de todas as mercadorias e produtos do Oriente, tornando-se numa grandiosa metrópole, capital do Senhorio da Índia portuguesa, residência dos vizo-reis, governadores, arcebispos e conselheiros, assento da chancelaria régia, o coração do seu império.