Dos arrabaldes acede-se à cidade pela porta dupla da muralha, chamada dos Bacais ou negociantes de cereais, no lugar da igreja de Nossa Senhora da Serra; outro dos acessos principais é o portão que leva à grandiosa praça com o seu tanque de cantaria e ao palácio do Sabaio Adil Sh-ah, com os seus magníficos salões e largos alpendres com colunas de madeira lavrada. Fernão gosta desta Goa Dourada, de ruas alinhadas com graciosas casas ao modo português – de um só sobrado por causa do calor, com jardins e pomares nas traseiras –, edifícios majestosos, formosas praças, belas tapadas de palmares, cobrindo várias colinas e vales. O porto é excelente, com o mercado, os edifícios da alfândega e do arsenal a darem os nomes às duas principais portas da muralha. É aqui que ele mais gosta de estar, a ver o movimento dos barcos e das gentes que chegam ou partem à aventura.

A cidade é um caldo de desvairadas raças, que lhe trazem à memória imagens de Lisboa, dos seus passeios pelo Rossio, Terreiro do Paço ou Ribeira, em que se cruzava com bandos de mercadores, séquitos de embaixadores e visitantes de muitos mundos. Aqui, são os portugueses a gente mais estranha entre gentios oriundos de vários reinos da Índia, assim como negros de remotos lugares de África, mouros, judeus, arménios, chins, jaus e muitos outros de que não saberia dizer a proveniência, quanto mais a religião, a seita ou o credo que professam aqui com toda a liberdade.

Hoje a azáfama parece maior, com magotes de povo a confluirem para o rio e, sem todavia lhe entender a causa, sente uma agitação no ar, como em ocasião de festa. Apesar da sua curiosidade, teme meter-se em grandes ajuntamentos, pois saíra há dois dias do hospital e, embora estivesse curado dos ferimentos que o tinham deixado às portas da morte, sofria ainda de vagados e fraqueza no corpo.

Ao cabo de mais de ano e meio no Oriente – e de algumas viagens em que sofrera perigos terríveis, duros trabalhos, ferimentos graves e até a escravidão –, achava-se pior do que quando chegara, feito um desgraçado sem eira nem beira, de bolsa vazia, igual a tantos outros enjeitados da sorte que enxameavam a Índia, vivendo da caridade alheia. Até parecia uma maldição, como se os Fados gostassem de se divertir à sua custa, alimentando-lhe os sonhos e a ambição com miragens de fortuna, para de seguida lhe encherem o caminho de obstáculos, empurrando-o para novos perigos ou desgraças. Tão cedo não poderia chamar para junto de si os irmãos Álvaro e António, conforme lhes prometera, a fim de criarem um negócio de família.

Brados e correrias do rapazio que enxameia o porto fazem-no virar a cabeça para ver a causa do reboliço. É o cortejo de um criminoso que vai ser justiçado e Fernão estranha que o castigo lhe seja dado no rio em vez de no pelourinho da cidade, a menos que a pena seja de morte por afogamento ou estraçalhado pelos crocodilos que infestam o rio.

O meirinho, seguido pelo escrivão, traz uma escolta de oito homens de chuças e quatro de espadas, como se receasse algum tumulto. Avançam, abrindo alas por entre a multidão que os rodeia, movida pela curiosidade, apertando-os e dificultando-lhes o passo, por isso, Fernão, de onde está, não consegue ver o criminoso. Fecha o cortejo uma pequena carroça coberta, seguida por um magote de mulheres gentias, umas trajadas à portuguesa, outras ao modo das suas terras, servas, escravas, mas também vendedeiras, aguadeiras e obreiras de vários mesteres. Os mariolas67 e o rapazio do porto juntam-se-lhes, numa grande surriada ao preso.

– Caso novo, nunca acontecido depois que se descobriu a Índia!

– Merece castigo exemplar, para meter medo a quem quiser fazer o mesmo. Não ides ver?

São dois portugueses, oficiais do porto e Fernão reconhece o que o interpela, por já o ter visto no hospital a tratar-se do mal de Vénus.

– Sim, se permitis que vos acompanhe – diz, levantando-se do caixote para os seguir. – O condenado é português? Que crime cometeu?

O cortejo acerca-se, fazendo afastar a multidão para ambos os lados, no movimento da onda que faz um navio impelido pelo vento. Os gritos e apupos impedem-no de ouvir a resposta do seu interlocutor, por isso solta uma exclamação de espanto ao ver que o criminoso é uma mulher gentia, de idade madura, conquanto formosa e de bom corpo. Trajada ao modo de Portugal, avança entre dois guardas, com algum esforço devido ao colar e corrente de ferro que lhe tolhe os passos, sem todavia parecer assustada nem arrependida, antes vai de cabeça erguida com um sorriso nos lábios, desafiador, sem se desviar das pedras nem das pancadas com que os mais atrevidos, furando por entre os guardas, logram atingi-la.

– Puta assassina, vais morrer como perra infiel que és.

– À fogueira! Queimai a renegada!

– Adúltera. Barregã do demo.

Перейти на страницу:

Поиск

Нет соединения с сервером, попробуйте зайти чуть позже