– Em Goa, os gentios são julgados e condenados pela nossa justiça e não pela do seu povo? – estranha Fernão, ofegante, estugando o passo para acompanhar os dois homens que se juntam à cauda da procissão que engrossa, à medida que se aproximam do cais. Insiste: – Sabeis que crime cometeu a mulher?
Sabem e contam-lhe a história.
A mulher era uma canarim cristã, casada com um português estabelecido em Goa. Contudo, nem o baptismo nem os ensinamentos da Santa Madre Igreja têm poder para contrariar a natureza das filhas destas terras, que são luxuriosas, salazes em extremo, devido à quentura do clima, aos comeres adubados com muitas especiarias quentes como as pimentas, além do bétele que mascam continuamente com uma calda de areca e cal, que lhes faz a língua vermelha e os dentes pretos, mas lhes acrescenta de sobremaneira a volúpia.
Portanto, muitas destas casadas cristãs continuam a praticar os costumes gentios, embora em segredo, mantendo além do marido um ou dois amantes para se satisfazerem. Nem a certeza de que, se cometerem adultério, os maridos as podem matar impunemente, para vingarem a desonra, lhes causa temor ou as tolhe de o fazerem, pois juram que não há melhor, nem mais honrada morte do que morrer sacrificada ao amor. Assim pensava esta canarim, cuja luxúria a levou ao crime, causando a sua perda.
Na Relação nem fora preciso dar-lhe tratos para lhe arrancar a confissão, respondera de bom grado às perguntas, contando todo o malefício que urdira, com tamanha desfaçatez e sem-remorso que escandalizara os inquiridores do processo. O marido não a tratava mal, afirmara, disso não havia que reclamar, mas há muito que fornicava as escravas, o que de início não lhe causara desgosto, por ser a conversação com mais de um parceiro coisa natural e sã, desde que continuasse a folgar e dormir com a esposa, porém, ele deixara de fazer caso dela.
À mingua de carinho, sendo de natureza ardente, buscara consolação no moço canarim que prestava serviço em sua casa. Temendo que as escravas a denunciassem e o marido matasse o amante tão caro ao seu coração (a própria morte não lhe metia medo, o perigo tornava-a ainda mais ardente, fazendo do adultério uma paixão mais nobre), decidira livrar-se do esposo. Acrescentara, para maior escândalo do juiz, que as leis portuguesas foram uma das razões que a levaram ao crime, por serem muito mais benéficas para as mulheres viúvas do que as leis gentias, pois não só lhes permitiam herdar os bens do marido como as deixavam livres para se casarem de novo, em vez de serem queimadas vivas juntamente com o morto.
Induzira o esposo a ir com o canarim, à terra firme, cortar lenha para vender. Dera instruções ao amante de como haveria de matar o amo, no mato, para que o corpo não fosse encontrado, prometendo casar com ele se lhe trouxesse uma prova da sua morte. Sem suspeitar da cilada, o marido fora sozinho com ele para os bosques, onde trabalhara toda a manhã no corte das árvores e, depois de comerem, deitara-se numa manta a fazer a sesta. Quando o vira ferrado no sono, o criado desferira-lhe um grande golpe na cabeça com o machado e vários no corpo, matando-o. Seguindo as instruções que a amante lhe dera, despira-o e queimara as roupas na fogueira em que fizera a comida, para que não o reconhecessem, guardando apenas a camisa ensanguentada como prova do seu feito.
O canarim confessara ao juiz que, quando a mulher vira a camisa, se alegrara muito com a certeza da morte do esposo e, depois de a queimar, fizera uma ceia ao modo de festa, levara-o para o natatório onde o lavara e perfumara, como se fora a primeira noite do seu casamento. Cearam ambos, folgando com muitos prazeres, em que ela era muito imaginosa; ardente de paixão, fizera-o repetir os pormenores da matança, beijando-o muito, dizendo-lhe que ele tinha vingado o seu coração.
– Sendo cristã, não posso casar com um gentio – murmurara-lhe por entre beijos. – Para poder estar contigo à minha vontade, tens de te fazer cristão. Sairás a ganhar.
Obedecera e, após algumas lições de catecismo, aprendidas as orações obrigatórias, fora baptizado pelo padre que casara o amo, passando a viver publicamente com a viúva, luzindo com muita galanteria os melhores fatos do morto, que ela lhe oferecera. Tamanho desaforo despertara suspeitas nos vizinhos que, estranhando a ausência do marido, decidiram fazer uma devassa, inquirindo e apertando com as escravas negras da casa, as quais acabaram por contar o crime dos dois amantes. Denunciados à justiça, o meirinho viera com a sua quadrilha prendê-los.
– Se o teu marido te tratava bem, porque o fizeste matar? – perguntara-lhe o promotor, durante a inquirição.
– Por folgar meu coração – respondera com um tom de orgulho que agastara o juiz e o levara a dar-lhe uma condenação exemplar, com uma pena de morte nunca antes vista.