Por sentença da Relação, a punição tem hoje lugar no cais da cidade, onde o cortejo se imobiliza quando o meirinho ergue a vara da justiça que traz na mão, como símbolo da sua autoridade. No silêncio que se faz súbito, o escrivão lê o pregão:

Justiça que ElRei nosso senhor manda fazer, que esta mulher morra de morte natural antre brutos animais, por matar seu marido, e adulterar com gentio fora de nossa santa fé, e seu delito confessar à justiça denodadamente, sem temor nem acatamento.

A uma ordem do meirinho, os guardas despem a mulher, cujo voluptuoso corpo nu, de um tom dourado de canela, arranca uma chuva de doestos e chistes brejeiros aos matalotes e calafates dos estaleiros, que tinham acudido a ver o entremez. Da carroça são trazidas para o lugar da execução uma grande pipa e cinco gaiolas com um cão, um gato, um galo, um bugio e uma cobra, num grande estardalhaço de saltos e coro de latidos, miados, cucuricos, guinchos e silvos, que o rapazio acirra com paus e espetos, provocando grandes risadas à assistência.

O carrasco dá um pequeno pano à mulher para tapar as vergonhas e, ajudado pelos guardas, mete-a dentro da pipa, juntamente com os animais que tiraram das gaiolas, selando-lhe logo a tampa onde foram feitos alguns buracos para resfolgo.

Embora tivesse assistido na sua vida a muitas mortes cruéis, Fernão sente o mareio subir-lhe à boca, ao ver o bárbaro castigo. A mulher, que até àquele momento não soltara um ai, grita agora com tamanho desespero que os seus uivos lancinantes se sobrepõem aos sons dos bichos que se guerreiam dentro da pipa, sobre o seu corpo, arranhando, picando, mordendo, esgaçando.

Aplaudidos por um coro de vaias e apupos, os guardas rolam a pipa ululante até ao batel que os remadores levam para o meio do rio, onde a largam, ficando por momentos a vê-la ir barra fora com a maré.

Despedindo-se dos companheiros ocasionais, Fernão afasta-se, dirigindo-se às tendas de Malcozinhado, para o mata-bicho, pois o estômago ronca-lhe de fome, mau grado o mareio. Nelas se come barato, em comparação com as tavernas do centro da cidade, sobretudo as da rua Direita, a mais rica e cara de Goa. Aqui vêm desaguar aventureiros, matalotes, soldados de fortuna, mercadores de poucos cabedais e menos escrúpulos, dispostos a embarcar em qualquer viagem de cabotagem ou de corso, que lhes traga algum proveito. A bodega está cheia de gente, mas ele não reconhece ninguém naquela multidão de homens que definham em Goa, como ele, à espera de um lance de boa sorte.

Enquanto come o caldo, não consegue deixar de pensar na mulher que acaba de ser executada. Ainda estaria viva, a sofrer ou, se a pipa não fosse estanque, teria a água posto um fim breve e misericordioso ao seu tormento? Ficaria a fazer parte das histórias dos casados de Goa, que haviam começado com Afonso de Albuquerque e lhe tinham causado tantos dissabores, sobretudo quando quisera proteger as gentias e mouras cativas, depois da conquista da cidade, chegando a enforcar um nobre português por sua causa. Fora assim.

66 Vijayanagara, a Cidade do Triunfo, fundada em 1326, deu o seu nome ao mais importante reino hindu do Decão. Importante base militar, o seu rei era Ashyuta Rãya (1530-1542).

67 Homens sem emprego ou profissão certa, cujos serviços se alugavam para carregar pesos, fazer recados e biscates.

XI

Não há como a mulher para fazer do homem quanto quer

(português)

Cartas de Afonso d’Albuquerque a el-Rei D. Manuel:

Aqui se tomaram algumas mouras, mulheres alvas e de bom parecer, e alguns homens limpos e de bem quiseram casar com elas e ficar aqui nesta terra, e me pediram fazenda, e eu os casei com elas e lhe[s] dei o casamento ordenado por Vossa Alteza, e a cada um seu cavalo e casas e terras e gado, aquilo que arrazoadamente me parecia bem: haverá aí quatrocentas e cinquenta almas; estas cativas e estas mulheres que casam tornam a suas casas e desenterram suas jóias e suas fazendas e suas arrecadas de ouro e aljôfar e rubis, e colares e manilhas, contas, e tudo lhe[s] deixo a elas e a seus maridos: os bens e as terras das mesquitas deixo à Igreja da invocação de Santa Catarina, em cujo dia nos Nosso Senhor deu a vitória pelos merecimentos dela, a qual igreja mando fazer dentro na fortaleza na cerca grande.

Escrita em Goa aos 22 dias de Dezembro de 1510

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