O feito dos casados vai muito avante, porque casam muitos homens de bem e muitos oficiais ferreiros e carpinteiros, torneiros e bombardeiros, e alguns alemães são cá casados; e creio, senhor, que se [eu] não partira de Goa, casariam aquele ano mais de quinhentas pessoas. Haverá em Cananor e Cochim cem casados, e em Goa perto de duzentos; e estão tantos criados de vossalteza e dos duques e condes de Portugal em Goa para casar, que o não pudera crer vossalteza. E por cartas sou avisado dos casados, em como, sem minha licença, são muitas mulheres tiradas de Goa por alguns homens que as tinham, porque eu nunca dei mulher a nenhuma pessoa, senão com condição que se a quisesse casar, que lhe daria alguma cousa por ela, e que ninguém as não tirasse de Goa sem minha licença.
Cochim, primeiro dia de Abril de mil quinhentos e doze
– Senhor, Timoja meteu nos navios da armada muitas mulheres cativas, esposas e filhas dos muçulmanos. Devias mandá-las recolher e guardar a bom recado, porque, como têm seus parentes na terra firme, poderão servir-te de seguro a moeda de troca, se quiseres concertar pazes com o Hidalcão.
Embora conhecesse a rivalidade entre o mouro Kwaja Beg (Cojebequi para os portugueses) e o hindu Timoja, a quem entregara respectivamente os assuntos dos muçulmanos e os dos gentios da cidade de Goa, Afonso de Albuquerque tivera de fazer um grande esforço para não deixar transparecer a sua ira. Estava grato a Timoja, que por duas vezes o ajudara a conquistar Goa, porém, decidido a libertar a ilha de todos os seguidores de Mafamede para a fazer cristã, ordenara-lhe que matasse todos os mouros, com suas mulheres e filhos, sem poupar a vida a ninguém. O corsário desobedecera-lhe, decerto cobiçoso das jóias e ouro que eles lhe tinham dado para se salvarem.
Por outro lado, agora que lhe passara a fúria contra Hidalcão, dava razão a Cojebequi e graças a Deus por as mulheres terem sido poupadas, sobretudo as mais nobres e ricas, que ele poderia usar contra qualquer tentativa de revolta dos moradores da cidade.
– Muito te agradeço o aviso. Farei como dizes, mas não fales disso a mais ninguém – recomendara-lhe.
Mandara chamar Timoja em privado, mostrando-se muito pesaroso por, durante todo aquele tempo, ele não o ter lembrado das mulheres que tomara e metera nas naus, fazendo com que os seus homens cometessem grandes pecados por dormirem com mouras. Daí que Deus os castigasse com as fomes, trabalhos e mortes que estavam a assolar a armada. O corsário, muito corrido, desculpara-se, assegurando-lhe com desfaçatez que fora ele que o mandara recolher as mulheres nos navios.
– Entreguei-as aos mestres, aos pilotos e a outros homens, como alvíssaras pela conquista, dado que não lhes permitimos o saque da cidade. Muitas delas já são cristãs.
– Vai buscá-las a todas e traz-mas aqui – ordenara-lhe.
De seguida fora queixar-se aos fidalgos e aos clérigos, recriminando-os por nada lhe terem dito sobre a presença das mouras nas naus.
– Senhor governador – respondera-lhe frei Domingos de Sousa, vigário da sua capitânia, em tom prazenteiro –, asseguro-vos que nesta armada nunca um cristão se tornou mouro por querer bem a uma moura, mas elas que se fizeram cristãs por amor aos portugueses, que as tratam muito melhor que os da sua Lei. Se os homens pecaram com elas, ao fazê-las cristãs, ficaram com os pecados perdoados, por ganharem uma alma para Deus.
Quase se arrependera da ordem que dera a Timoja, quando ele lhe trouxe um enxame de mulheres, das quais só uma centena das mais formosas, por serem mais honradas ou principais, se havia recusado a renegar a sua religião. Resolvera parte da delicada situação, dando alforria a todas as cativas que se tinham tornado cristãs, a quem mandara escrever os seus nomes e os dos homens com quem viviam, para se saber que não eram escravas, mas suas protegidas, seguras de que ele pediria contas aos seus companheiros, se fossem maltratadas.
Muitos dos matalotes e soldados que amavam verdadeiramente estas mulheres, mal ouviram dizer que tinham de as entregar ao governador, temendo perdê-las, apressaram-se a casar com elas, vindo pedir-lhe as esposas, com muitas lágrimas. Certificara-se de que não se tratava de manhas para terem uma escrava, fazendo com que, diante dele, as recebessem de novo por esposas.
– Ora, senhor governador, receberem por duas vezes o sacramento?! – escandalizara-se o vigário. – Um tal matrimónio não é mandamento da Igreja.
– Serão então casados segundo o mandamento d’Afonso de Albuquerque – atalhara risonho, mas num tom que não admitia qualquer recusa.