Afonso de Albuquerque viu que todos os que havia sido convocados estavam a postos, esperando as suas ordens: na água o batel com o mestre e os marinheiros, na tolda Duarte de Sousa com os principais fidalgos da sua companhia, armados para o combate, se necessário fosse. Do chapitéu da nau, podia ver tudo o que se passava na Flor da Rosa, onde o esquife com o meirinho Fernão de Lis e os seus oito alabardeiros acabava de acostar.

Na devassa que fizera com o secretário Lourenço de Paiva, o ouvidor Pêro de Alpoim apurara que o visitante nocturno das mouras, denunciado pelo contramestre, fora Rui Dias. Albuquerque ficara muito anojado por não poder castigar também os seus companheiros de aventuras, mas, como ninguém os vira entrar na câmara, os três rufiões tinham sido ilibados. A sentença fora lavrada nos autos, com o seguinte pregão:

Justiça que manda fazer el-rei nosso senhor, por sentença do governador, em Rui Dias, por delito de pecado de dormir com moura, cometido na nau capitânia, com atrevimento atraiçoado, manda que morra na forca de morte natural para sempre.

O meirinho levava ordens para prender Rui Dias e enforcá-lo de imediato num mastro da Flor da Rosa. Bastante apreensivo com aquela incumbência, Fernão de Lis subiu a bordo com os alabardeiros e os quatro peões que levava por carrascos. Viu Rui Dias na tolda a jogar às távolas com o capitão Jorge Fogaça.

– Estai preso da parte d’el-rei! – ordenou-lhe, agarrando-o por um braço.

O peão cafre atou-lhe de imediato um palanco ao pescoço e os outros três guindaram-no ao mastro, onde morreu enforcado. O acto, de tão inesperado e rápido, deixou toda a gente petrificada de espanto, sem que ninguém esboçasse sequer um gesto para os deter. Porém, vendo Rui Dias a estrebuchar pendurado na verga, o capitão Fogaça desembainhou a espada e correu para lhe cortar o cabo. Foi o sinal para que os da nau acordassem do seu estupor e tomassem as armas.

– Bernardim, acode-me que enforcam a Rui Dias! – chamava o capitão, em altos brados para a nau de Bernardim Freire que emparelhava com a sua.

O amigo acudiu logo no esquife, com Francisco de Sá e os irmãos Simão e Fernão Peres de Andrada, todos armados e a gritarem:

– Não consintas em tal, Fogaça! Não lho consintas!

– Largai as armas, em nome d’el-rei! Cessai o tumulto, por el-rei e Jesus Cristo! – clamava Fernão de Lis, vendo-se acossado de todos os lados, temendo pela sua vida.

– O governador! Chamai o governador! – berravam a plenos pulmões os alabardeiros vendo-se em minoria face aos matalotes e soldados, que apertavam o cerco, de armas nas mãos, a fitarem-nos enraivecidos.

Albuquerque, empunhando o estandarte real, meteu-se no batel com os fidalgos e muita gente armada indo dar voz de prisão aos capitães revoltados. Tirou-lhes as capitânias das naus, que entregou a gente de sua confiança, pondo os cabecilhas a ferros, debaixo da coberta do seu navio para neles ter maior vigia68.

68 Lendas da Índia, tomo II, parte I, capítulo XVI, de Gaspar Correia.

XII

A sorte é como uma mulher, que quer quando não queremos e que não quer, quando queremos

(português)

Era a cidade de Goa situada neste rio de Goa Velha, em que entrou o Timoja, a qual cidade despovoou, e se tornou a povoar a cidade onde agora é, e isto porque o rio cá tinha melhor fundo e melhor varadeiro para as naus dos mercadores, que acrescentaram muito à nobreza da cidade, porque por toda a ilha de Goa em roda tinha muitos esteiros e várzeas alagadiças, que se cobriam com a maré, e em alguns lugares, que havia passagem da terra firme para Goa, tinham os mouros torres e muralhas que tolhiam a passagem, em que tinham piães e guardas; e porque não passassem a nado, as gentes que matavam as deitavam no rio, em que havia muitos lagartos que andavam encarniçados, que às vezes soçobravam as almadias por comer a gente, e tomavam os que se estavam lavando na borda do rio. E por caso do rio de Goa, a Velha, muito espraiar, e os mercadores não poderem varar as suas naus, por isso se passaram ao outro rio, que era bom, em que se fez a cidade, e ficou o nome de Goa Velha ao outro rio.

(Lendas da Índia, de Gaspar Correia)

Fernão Mendes Pinto ajeita a capa, sentindo com agrado o toque do bom pano e mergulha na animação da rua Direita, que divide a cidade em duas e é mostruário da riqueza e fausto da Goa Dourada, que finalmente pudera conhecer com algum ripanço. Indo de norte para sul, podem ver-se os belos edifícios da Santa Casa da Misericórdia, da igreja de Nossa Senhora da Serra e da Casa do Senado. Por trás das janelas das casas ricas, construídas ao modo de Portugal, assomam donas e donzelas de boas famílias até onde o recato lhes permite serem vistas; em outras, meio abertas ou escancaradas, mostram-se mulheres e moças muito louçãs, brancas, pardas e negras, lançando chistes e risos ou acenando aos que as cortejam.

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