A meio da compridíssima rua, ergue-se o vulto imponente da igreja de Santa Catarina, elevada nesse ano a catedral de Goa, no local onde Afonso de Albuquerque lhe dedicara a sua conquista. Mais abaixo, a praça do Pelourinho, no cruzamento de seis ruas, tem um grande bazar, em cujos claustros há quarenta e oito boticas, que de dia vendem toda a sorte de legumes e outros comeres e de noite se faz a baratilha, uma venda de objectos roubados.
Escuta os chamamentos dos barbeiros sangradores, sentados às portas das suas casas ou das tendas, à espera dos fregueses, os pregões das doceiras e aguadeiras que percorrem as ruas, umas com bacias ou cestas de doces cobertos com panos mimosamente bordados, outras com os cântaros de água fresca da fonte. Nas lojas dos ourives, os tabuleiros refulgem com o ouro e as pedras preciosas de jóias magníficas, rivalizando com o brilho das sedas, dos cetins, dos brocados bordados a fio de ouro, prata e aljofre. Por trás da igreja de Nossa Senhora da Luz ergue-se ameaçadora a forca de pedra.
O leilão, que é o acontecimento mais importante da cidade, tem lugar na rua Direita todas as manhãs, das sete às nove horas por causa do calor, durante o ano inteiro, excepto aos domingos e dias santos. Um ajuntamento só ultrapassado pelos recebimentos dos vizo-reis e governadores da Índia, segundo lhe asseguraram e ele não duvida quando acotovela a imensa multidão de portugueses, de naturais da terra e de gente não só dos reinos vizinhos como de todas as nações do Oriente, que o engolem como uma impetuosa onda.
A rua Direita é, por isso, o local escolhido pelos moradores da cidade para se fazer alarde da riqueza e do poder, reais ou fingidos. Fidalgos, gente nobre ou baixa, mercadores ricos ou aventureiros sem eira nem beira, vêm cortejar as barregãs, as mestiças amancebadas com homens ricos, as escravas forras, muito fogosas, que fazem gala em ter o maior número de amantes. Aqui merca-se toda a sorte de produtos: especiarias, drogas, cavalos árabes e persas, escravos de trabalho e de prazer; também se compram os serviços das cativas que os seus senhores põem a render, vendendo além dos doces os seus corpos de mais apetitosos e exóticos sabores.
Tanto os homens como as mulheres exibem as suas melhores galas, arrastando o passo com muita pompa, acompanhados por um séquito de escravos, comprados ou alugados, tantos quanto lhes permitem as bolsas: um moço na frente, empunhando um grande sombreiro ou toldo por cima da cabeça do amo ou ama, outros para lhes levarem a espada, o leque, o jarro de água, o missal, a almofada para os pés e o banco para se sentarem.
Parece uma dança de galos, a troca de infinitas cortesias e reverências entre os homens ou destes para as damas, cada vez que se cruzam com conhecidos, inclinando o corpo, com a perna estendida, o chapéu a roçar o chão, balbuciando um Beijo-vos as mãos, cheio de presunção. Não se vêem donas, muito menos donzelas, portuguesas de boas famílias, que essas só saem para ir à igreja ou para visitar uma amiga, sempre embiocadas, metidas em cadeirinhas ou liteiras tapadas; o resto do tempo permanecem, como em Portugal, fechadas em casa a sete chaves, por estes maridos, pais ou irmãos zelosos que se pavoneiam na rua Direita, em busca de conversação com escravas, mulheres públicas ou adúlteras.
Os gritos dos pregoeiros a anunciarem as mercadorias de Cambaia, Bengala, Pérsia, China e outros infindos reinos, sobrepõem-se à vozearia da multidão dos compradores ou dos que, como ele, apenas vêm passear e mirar. Adornados como ricas cortesãs, com cadeias de ouro, anéis e outras jóias, atraem todas as atenções os pregoeiros dos produtos de luxo, como sedas, perfumes, pedras preciosas, tapeçarias, porcelanas, enfim, tudo o que o desejo cobice e o dinheiro, a prata ou o ouro possam comprar.
Pára a ver a almoeda da Provedoria dos Defuntos e Ausentes que licita os bens dos que morreram ou desapareceram no mar, cujos proventos ajudarão as suas viúvas e órfãos a regressarem ao reino. Acha tudo muito caro e, embora sinta que a sua má sorte está a mudar, prefere poupar o dinheiro do soldo que lhe adiantou o capitão Pêro de Faria.
O mercado dos escravos está ainda muito concorrido e ele retarda o passo, sem se dar conta, a ver a moça java de corpo esbelto, quase nua, que está a ser leiloada. A lembrança da sua própria venda e servidão no mar Roxo causam-lhe uma dor pungente, fazendo-o acelerar o passo rua abaixo, a caminho do cais, perseguido pelas penosas recordações que procurava em vão esquecer. Quando se vira livre da escravatura em Ormuz, embarcara na nau de Jorge Fernandes Taborda a caminho de Goa, crendo que a Fortuna por fim lhe sorria permitindo-lhe recomeçar a vida; em vez disso, navegara novamente direito ao perigo, escapando por um triz de ser morto ou cativado pelos rumes que cercavam Diu.