– Quando, depois de lhe dar a fortaleza de Diu, o sultão Bahadur pediu ao governador D. Nuno da Cunha que lhe desse ajuda contra os mogores seus inimigos – confiara-lhe, um dia, com um sorriso divertido –, o senhor Martim Afonso de Sousa ofereceu-se para comandar quinhentos homens de cavalo, que o quisessem acompanhar, assegurando que esses bastariam para o socorrer. Todos os fidalgos da armada se ofereceram para o acompanhar, de modo que o capitão pôde escolher os melhores e eu fui com eles, para cuidar dos feridos, que sempre os há nas guerras.
Cavalgámos por terra firme, atravessando toda a península do Guzarate, em constantes brigas com os bandos de mogores, que se retiravam para Deli e andavam a roubar os camponeses e a violar as mulheres. Então Martim Afonso adoeceu e el-rei, que o estimava muito, chamou-me e perguntou-me como havia de curar o capitão daquelas febres69.
– Primeiro sangrá-lo-ei, meu Senhor – disse-lhe com muito acatamento –, e logo lhe darei xarope de sumo de limões, romãs e açúcar. E tomará também uma purga com maná e ruibarbo.
Eram as mezinhas que trazia comigo, porque não havia outras no seu arraial que eu conhecesse. Bahadur, porém, abanou a cabeça, reprovador:
– Os portugueses não sabem curar febres tão bem como os guzarates, que não as curam com outra cousa, senão com não comer.
Longe de mim porfiar com el-rei que, embora não fosse letrado, era muito voluntarioso e o maior rei que havia naquela terra.
– Vossa Alteza diz bem! – retorqui, mostrando admiração pelo seu saber. – Há três dias que não dou de comer ao capitão. Por isso o quero xaropar e dar-lhe a comer uma dieta subtil.
– Quatro dias é muito pouco – insistiu o casmurro –, há mester estar ao menos vinte dias sem comer cousa alguma. Reconheço que os portugueses são muito bons físicos nas outras enfermidades, mas nas febres, os guzarates são melhores.
Eu calei-me, que outra cousa não podia fazer, e fingi obedecer, mas às escondidas sangrei Martim Afonso de Sousa e dei-lhe a comer galinhas, não sendo necessário purgá-lo, pois depressa ficou curado.
Fernão rira-se da história, jurara-lhe que folgara muito mais em ser tratado com a sua dieta de galinha e os seus xaropes do que com a receita de Bahadur, que por certo o mataria. O ilustre físico mostrava desejos de fazer dele aprendiz de boticário, porém, o padre Manuel, que assistia aos doentes e lhe quisera dar a extrema-unção quando o vira no pico da febre, aconselhara-o a ir sem demora oferecer-se ao fidalgo Pêro de Faria, que estava provido da capitania de Malaca e dava mesa a todos os que quisessem entrar para o seu serviço e acompanhá-lo, quando fosse ocupar o seu posto. Fernão agradecera o conselho, agarrando a oportunidade com ambas as mãos.
Malaca era agora melhor do que qualquer outro lugar da Índia para se buscar fortuna, quer em viagens de trato – desde que a Coroa portuguesa abdicara do monopólio das especiarias e concedia licenças a particulares –, quer no corso, a andar às presas. Se o capitão o aceitasse, ele seria o homem mais afortunado do mundo! Para se enriquecer no Oriente, era necessário pertencer a uma dessas redes de parentesco e amizade dos principais servidores da Coroa, em particular, dos capitães das fortalezas.
Pêro de Faria era um veterano das campanhas da Índia, companheiro de Afonso de Albuquerque, com provas dadas nas conquistas de Goa e Malaca, da qual já tinha sido capitão durante um ano, em mil quinhentos e vinte e oito. Segundo ele mesmo dizia, sendo filho do comendador Álvaro de Faria e de uma moura de Safim, pela morte do pai e por ter ruins parentes, entrara para o serviço d’el-rei D. Manuel com moradia de bastardo, uma tença que ficava em nada, mal lhe dando para comer. Por isso viera para a Índia, onde fizera fortuna e se casara com uma gentia, de quem tinha quatro filhos, dois varões – o primogénito, Álvaro como o avô, já nomeado pelo pai para capitão-mor do mar de Malaca, e Manuel que também servia na armada – e duas moças, Leonor, esposa do fidalgo D. Pedro de Eça, e Guiomar que acabava de casar em segundas núpcias com o filho do governador Diogo Lopes de Sequeira.
Graças às recomendações dos seus dois protectores, o capitão não só o aceitara no serviço da sua gente de confiança, como prometera fazer-lhe todos os favores que pudesse, durante a sua capitania em Malaca, começando por o deixar ir na nau de trato que queria enviar à China assim que fosse provido do cargo.
Fernão teria preferido ficar em Goa, mas não achara protector que lhe assegurasse um posto na administração da cidade, o que só se conseguia com muitas peitas ou padrinhos mais poderosos e influentes do que os seus. Assim, hoje é a sua despedida de Goa, pois vai embarcar na nau de Pêro de Faria, que quer ter tudo prestes para partir mal chegue a ordem de D. Garcia de Noronha.