Desemboca finalmente no porto, onde a sua vista se perde num mar coalhado de velas. Os barcos de mercadorias mal têm lugar para descarregar os seus produtos, por causa dos cento e setenta navios da armada, que esperam ou desesperam pela ordem do vizo-rei para irem em socorro de Diu. Vê vir na sua direcção, quase correndo, o doutor Garcia de Orta, com o criado na sua peugada, a balançar o sombreiro como uma palmeira ao vento.

– Diu está livre! – grita-lhe esbaforido. – Os rumes abandonaram o cerco e el-rei de Cambaia pediu a paz!

– Então já não vamos a Diu? – pergunta, aliviado. – Se já não temos de pelejar com os rumes.

– D. Garcia de Noronha quer governar o mundo em seco! – retorque o físico, agastado. – Manda agora a armada a Diu para reconstruir a fortaleza, cuja destruição deveria ter impedido! Ouvis quão poucos tiros de salva lançam os navios? Os fidalgos não querem festejar a vitória que não lhes pertence e amaldiçoam o vizo-rei por os ter impedido de ganhar a honra de vencer a armada dos rumes. Para mais, D. Garcia gaba-se de ter feito fugir os rumes com medo da sua armada, como lhe disse António Silva numa carta. Mas os homens do catur que trouxeram a missiva contaram outra história: António Silva mentia com quantos dentes tinha na boca, porque não ousara ir a Diu, nem sequer chegara à vista das galés. A armada do turco retirou-se porque António da Silveira e o seu punhado de valentes lhe mataram muitíssima gente nos combates! – Orta riu-se, malicioso: – A história é já sabida por toda a armada e todos sentem grande prazer em zombar do Silva para danar o vizo-rei, que lhe deu muitos louvores e o despachou logo com as novas para o reino.

– Os fidalgos e capitães doeram-se muito por D. Garcia de Noronha não ter permitido que Nuno da Cunha os comandasse num ataque a Soleimão Baxá e, como se isso não bastasse, por ter recusado ao governador um navio para volver ao reino!

– Ah, portugueses, portugueses! Quão invejosos ou quão pouco amigos sois das honras dos outros! – desabafa o médico e, com um aceno distraído, desaparece no meio da multidão.

Fernão fita durante alguns instantes o largo sombreiro balouçante que parece pairar sobre as cabeças dos passantes, mas logo desvia os olhos para a armada. Tem de se apresentar sem demora a Pêro de Faria, já que a sua vida e o seu futuro dependem agora desse valente capitão.

69 Colóquios dos Simples e Drogas da Índia, de Garcia de Orta.

XIII

A honra é a bússola do homem de bem

(português)

O Primeiro Cerco de Diu, Canto XX

LXXXVII. Sendo esta noite à Lua então negada,

Por interposição da opaca terra,

A participação da luz usada

Que o Sol de natureza em si encerra,

De todo se mostrou quase eclipsada

Com que mais se escurece a noite e cerra,

E quiçá que este mau e usado agouro

A partida apressar fez mais ao Mouro.

LXXXVIII. Esta noite também aquela gente

Que de Cojaçofar segue o estandarte,

Fazendo que a Cidade a chama ardente

Sinta primeiro n’uma e n’outra parte,

Também danificada e descontente

Antes de ser manhã, dali se parte,

E o lugar com grão medo desampara

Que com grã confiança antes tomara.

LXXXIX. Também nesta mesma hora dentro colhe

Com grã silêncio o ferro a imiga frota,

A vela um brando vento em si recolhe,

E lá do Roxo Mar segue a derrota.

Porém dos que feridos leva, escolhe

Os mais fracos primeiro, e em terra os bota

Dos que menos o mar sofrer podiam,

Quatrocentos ouvi que estes seriam.

A nau de Pêro de Faria fora das primeiras a chegar a Diu, escapando ao pior da tempestade que quase desbaratara a armada do vizo-rei. De certo modo, o milagre acontecera por obra e graça de Fernão Mendes Pinto a quem o doutor Garcia de Orta dera quatro sanguessugas das que tinha no hospital para sangrar os doentes. O sábio amigo metera cada uma em seu frasco de vidro, com água de nascente até dois terços de altura, fechara-os com umas tampas de respiradouros, dizendo-lhe que as bichas eram as melhores indiciadoras das mudanças de tempo, sobretudo das tempestades que se podiam sofrer durante a navegação por aqueles mares traiçoeiros. Fernão aceitara a oferta, um tanto desconfiado, embora ouvindo com atenção as suas explicações sobre o que devia observar para prever os temporais.

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